Título: Governabilidade é desafio para o próximo presidente
Autor: Arêas, Camila
Fonte: Jornal do Brasil, 20/04/2008, Internacional, p. A28

Oficialismo está dividido e líder da esquerda carece de histórico político mas terá de administrar coalizão.

Mudança radical ou tranqüila, oposição ou oficialismo, o vencedor das eleições presidenciais de hoje terá de governar um Paraguai que se impôs diferente nesta campanha eleitoral. O pleito trouxe à tona dívidas históricas que expuseram um modelo de governo em crise, uma transição democrática a ser completada. As pesquisas de opinião apontam não apenas a vitória presidencial de uma nova oposição ¿ em parte conformada por forças de esquerda, como a inédita participação de legendas esquerdistas no Congresso Nacional.

A candidata governista Blanca Ovelar carece de legitimidade dentro do próprio Partido Colorado, o que a debilita na negociação com os caciques que há 60 anos manipulam a máquina pública. O líder da oposição Fernando Lugo terá como desafio mostrar que a coalizão de mais de 20 partidos pela qual é candidato, a Aliança Patriótica para a mudança, é viável no poder. A conclusão de analistas é que, em ambas as situações, o país será afetado por uma crise de governabilidade, reflexo da crise da hegemonia colorada.

Se Blanca for eleita, sua legitimidade vai depender muito da porcentagem nas urnas pois ela precisa se desfazer da imagem fraudulenta que a acompanha desde as internas do partido. O grupo de dirigentes colorados que apostou na candidatura presidencial de Luis Castiglioni já negocia unir-se à bancada de Lugo.

Blanca não é dona da sua bancada no Congresso, eleita inteiramente pelo presidente Nicanor Duarte Frutos. E o seu vice de chapa, Carlos María Santa Cruz, um total desconhecido, é "outro fiel de Nicanor", como ilustra o politólogo Alejandro Vial:

¿ Se esta chapa ganhar, Nicanor se consagra como gênio político, mas ao custo de afundar o partido.

A lógica é que, por meio de Blanca, Nicanor siga repartindo cargos e contratos para manter sua influência. No privado, Blanca diz que vai fazer sua própria agenda, mas de forma pública nunca enfrentou Nicanor, mesmo com todos os seus assessores aconselhando que se distancie do presidente que lhe "rouba" boa imagem. E isso ela nunca fez. Mesmo às custas de perder votos.

Nicanor vai entrar para a História como presidente em exercício e senador eleito no dia 20 de junho. Com projeto de candidatar-se novamente à Presidência em 2013, deve lutar para assumir a chefia do partido, cargo que também ocupa hoje, em condição de licença. O analista Antonio Carmona prevê um clima de disputa no Congresso:

¿ Fora do governo, a primeira grande batalha de Nicanor será controlar as candidaturas do Partido Colorado, porque sua força no Congresso é grande. No entanto, muitos colorados respeitados na Casa não são fiéis a Nicanor.

As pesquisas de opinião indicam que nenhum dos presidenciáveis terá maioria no Congresso. Mostram que o Partido Colorado deve conquistar 15 cadeiras no Senado, seguido pelo Partido Liberal, com 12, e pelo Unace ¿ que tem como candidato o general Lino Oviedo ¿ com oito cadeiras.

De menor peso, o Pátria Querida deve colocar quatro senadores, enquanto as estreantes esquerdistas do Tekojoja e do P-MAS, que nunca elegeram um candidato, devem obter duas vitórias no Senado.

Neste caso, a dificuldade de um partido conservador como o Liberal negociar com forças progressitas, como o P-MAS e o Tekojoja unidas, dentro da Aliança de Lugo é determinante. Sua governabilidade será muito pequena porque "até agora não mostrou capacidade administrativa para dirigir tantos grupos", avalia Carmona:

¿ As correntes populistas tendem a ser sectárias, característica que não tem como se manter no governo sem prejuízos. Lugo pode simplesmente brigar com todos e se aliar ao Tekojoja e ao P-MAS, que respondem à origem da sua candidatura, mas neste caso não teria nenhuma representação parlamentar.

Diante da necessidade de formar consenso, "uma estratégia para Lugo seria apoiar-se no seu vice, Federico Franco, que tem experiência política, é respeitado no Congresso", aponta Carmona:

¿ Desta forma, Lugo obteria governabilidade. No entanto, é provável que seus partidos de base sigam competindo com o Partido Liberal. Neste caso, o fracasso levaria a uma frustração geral.