Título: Futuro xiita
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 25/01/2005, Internacional, p. A8

Em um país onde alguns candidatos se dirigem ao eleitorado protegidos por escudos a prova de balas, o candidato Fatah al-Sheik, da Cidade Sadr, parece concorrer em uma eleição diferente.

Se há poucos comícios e quase nenhum concorrente nas ruas, Sheikh mostra técnicas de um típico político ocidental. Nas devastadas avenidas de Bagdá, ele procura câmaras de televisão.

- Por que deveria ter medo? - pergunta o candidato, na capital iraquiana.

Sheik já foi porta-voz de um militante clérigo e hoje dirige um partido, liderando uma lista própria de candidatos à Assembléia.

- As pessoas aqui nos conhecem e nos respeitam. Sabem que vamos lutar e morrer com eles - diz.

Os residentes da Cidade Sadr - um conglomerado pobre de 2 milhões de xiitas a Nordeste de Bagdá - guardam uma profunda desconfiança com relação a estrangeiros, o que Sheik pretende aproveitar. Com quase 10% da população do país, o distrito é um importante posto eleitoral.

Sheikh e os outros 132 nomes da lista eleitoral que lidera, todos da Cidade Sadr, são partidários fiéis da Moqtada al-Sadr, o clérigo jovem possuidor de um exército de militantes que deram trabalho às forças americanas tanto em Sadr quanto em Najaf, até que um cessar-fogo foi assinado pelo grande aiatolá Ali al-Sistani. A Cidade Sadr chamava-se Cidade Saddam e foi rebatizada em homenagem ao pai de Moqtada depois da queda do ex-ditador iraquiano.

Fatah al-Sheik espera que o Iraque adote uma Constituição islâmica e diz que o principal objetivo da nova liderança deve ser preparar o caminho para a chegada de Mahdi. Segundo os xiitas, a divindade um dia virá à Terra para redimir os pecados dos Homens.

- Moqtada é a pessoa mais responsável e capaz de preparar a chegada de Mahdi, o primeiro passo deve ser o de criar o Exército de Mahdi - diz Sheik, que foi preso duas vezes durante o regime de Saddam Hussein porque editava um jornal xiita religioso. - O que nós queremos hoje é uma Constituição que siga os princípios de Mohammed Sadek al-Sadr. Uma Constituição escrita pela história do Islã, um livro sagrado, que contenha as tradições do profeta Maomé.