Título: Organizações decidem pelo boicote
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Fonte: Jornal do Brasil, 25/01/2005, Internacional, p. A8
A seis dias da votação, candidatos desistem de participar e eleitores não sabem quem são os candidatos
Ha poucos dias das eleições iraquianas, mais um grupo político anunciou que não vai participar da votação. A Frente Unida Árabe, que reúne organizações árabes sunitas e xiitas em Kirkuk (Norte), decidiu ontem boicotar o pleito do próximo domingo.
- Tomamos a decisão de nos retirar das eleições depois que a comissão eleitoral autorizou os curdos deslocados a votar - afirmou o xeque Wasfi al Assi, secretário-geral da formação.
Cerca de 70 mil iraquianos curdos que voltaram à região nos últimos meses tiveram permissão de participar das eleições. Al Assi disse que os curdos não são residentes de Kirkuk e não poderiam votar no posto eleitoral que estará em funcionamento na cidade.
A questão sobre quem pode votar na cidade, local estratégico devido à exploração petrolífera na região, gera tensões já que o dostrito abriga árabes, curdos e turcos.
Muitos consideram a cidade como parte do território curdo, ao Norte do Iraque. Durante o regime do ex-ditador Saddam Hussein, os curdos foram retirados do local e milhares de árabes foram assentados na região.
Os partidos curdos fizeram, inicialmente, ameaças de boicote às eleições, a menos que os refugiados também tivessem permissão para votar. Com a autorização, representantes dos partidos decidiram então participar do pleito, que acabou perdendo a Frente Unida Árabe.
Em Faluja, cidade que foi palco do mais violento conflito entre tropas americanas e rebeldes no Iraque, pôsteres de campanha prometem um futuro promissor, mas poucos moradores acreditam que o pleitopossa ajudá-los. Mesmo os interessados no processo eleitoral não têm idéia de quem sejam os candidatos.
- É essa a democracia que as eleições vão trazer? - pergunta Majid Muhammad, apontando para os prédios reduzidos a escombros quando soldados americanos e iraquianos investiram, em novembro, contra rebeldes abrigados na cidade.
- Como podemos votar depois de toda essa destruição? Não temos fé na política. Não acho que alguém vá votar em Faluja - afirma.
A localização dos postos de votação a serem instalados na cidade permanecerá em segredo até pouco antes do pleito, já que há o temor de ataques dos insurgentes.
- Não temos idéia de quem sejam os candidatos. Como podemos ter informações quando não conseguimos ao menos ver televisão devido à falta de eletricidade? - perguntou o comerciante Khamis Merdis.
Em Bagdá, algumas organizações sunitas ainda defendem o adiamento.
Duas formações laicas, a União de Democratas Independentes e o Partido Nacional Democrata, dirigidas, respectivamente, pelos políticos sunitas Andan Pachachi e Nasir Chaderchi, decidiram participar nas eleições, mas se mantêm críticos. O primeiro pediu o adiamento da votação por seis meses para esperar por uma melhoria das condições de segurança, o que foi rejeitado pelos xiitas, majoritários, assim como pelo governo iraquiano e os EUA.
- Assim poderíamos chegar a uma reconciliação nacional que contribuiria para acabar com a violência no país - avaliou Saad Abdel Razek, da União de Democratas Independentes.
Por outro lado, Chaderchi considera que o adiamento por um ano seria necessário para garantir ''uma participação sunita maior, assim como de outras comunidades''.
Evocando motivos de segurança, o Movimento Socialista Árabe (MSA) é mais uma organização que anunciou o boicote à disputa eleitoral.
Qais al-Azaui, líder da MSA, criticou Washington por ter se negado a esperar o tempo necessário para permitir que as províncias sunitas participassem, ''enquanto que, no caso dos sérvios e bósnios, os EUA e a Europa fizeram o possível para permitir que todos votassem''.
Pelas mesmas razões, a principal formação sunita do Iraque, o Partido Islâmico Iraquiano, que havia apresentado 275 candidatos às legislativas, decidiu, em 27 de dezembro passado, se retirar da campanha eleitoral. No último dia 22, o Partido Islâmico Iraquiano e o Comitê dos Ulemás anunciaram, no entanto, a suspensão do boicote para as eleições do conselho da província de Diyala e mantiveram sua convocação de boicote às eleições legislativas