Título: Mudança de regra para estrangeiros
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Fonte: Jornal do Brasil, 27/04/2008, Internacional, p. A26

Em pouco menos de 100 dias, a China vai abrir as portas para uma multidão de estrangeiros, muitos dos quais ficarão surpresos ao encontrarem uma variedade de lojas e bares que divertem exilados e chineses de classe média na capital que já fora descuidada. Mas mesmo que Pequim prometa dar boas vindas a 1,5 milhão de visitantes para as Olimpíadas, os oficiais de segurança pública aumentaram os mecanismos de controle e implementaram restrições de visto, o que preocupa os 250 mil estrangeiros que vieram para a capital nos últimos anos. As regras para obtenção de visto, implantadas na semana passada sem muita explicação, restringem a estadia de muitos visitantes a um período de 30 dias, substituindo vistos flexíveis e múltiplos que permitiam que as pessoas ficassem no país por até um ano. As normas dificultam a situação dos estrangeiros que querem viver e trabalhar em Pequim sem pedir permissão para habitação, que pode ser difícil de obter. As restrições também complicam a vida de empresários em Hong Kong, Taipei, Seul e Cingapura, acostumados a cruzarem a fronteira com facilidade. ­ Não posso explicar a gravidade do problema. Uma barreira como esta afetará os negócios ­ opina Richard Vuylsteke, presidente da Câmara Americana de Comércio em Hong Kong. Operação limpeza O governo quer apresentar uma imagem sem manchas de Pequim para as Olimpíadas. Os policiais tiraram das ruas os mendigos e fecharam lojas que vendiam DVDs piratas, além de obrigarem alguns migrantes a voltarem ao campo. No último mês, a polícia fez incursões em bares e clubes suspeitos de abrigarem traficantes de drogas. Uma operação, há duas semanas, que prendeu um grupo de adolescentes franceses, provocou acusações contra táticas policiais violentas. Outras restrições podem parecer aleatórias, como uma decisão na quarta-feira que forçou o cancelamento de um festival de música popular uma semana antes de seu início. Segundo os organizadores do Midi Festival, evento que já tem oito anos, os oficiais contaram a eles que estavam preocupados com a segurança. Mais de 80 bandas, muitas delas do exterior, estavam agendadas para se apresentar. No entanto, a maior parte do medo e da consternação foi causada pelas novas regras de visto, que levaram milhares de moradores estrangeiros a buscarem documentos no mercado negro ­ ou a pensarem em sair do país. Moradores que, no passado, podiam solicitar localmente vistos para trabalho ou de turistas com duração de um ano foram instruídos a voltarem para casa e pedirem vistos de curto prazo na Embaixada Chinesa em seus países de origem. Alguns, como Desmond McGarry, músico de jazz que mora na região desde 2002, devem deixar o país. De acordo com McGarry, voltar para o Canadá significa abandonar seu apartamento e uma rede de amigos. ­ Até agora tem sido muito confortável, mesmo vivendo em uma região poluída. Talvez eu vá embora e tente voltar no outono, quando as coisas se acalmarem ­ desabafa. As novas regras de visto chegam em uma época de grandes tensões em Pequim e outras cidades, onde o ódio público é conduzido por governos ocidentais e pela imprensa internacional simpáticos à independência do Tibete. Na última semana, os descontentes fizeram manifestações na embaixada francesa em Pequim e em lojas do Carrefour, cadeia de supermercados francesa cujos executivos foram acusados de se alinharem com o Dalai Lama. Alguns estrangeiros que moram na região esperam ansiosos pelo dia 1º de maio, primeiro dia de boicote ao Carrefour. Apesar de a maioria dos estrangeiros afirmar que não viram mudanças no comportamento de seus vizinhos e colegas de trabalho chineses, alguns moradores franceses reclamam que a ira nacionalista está respingando neles. Um empresário que joga tênis em um clube chinês disse que conhecidos se recusaram a se juntarem a ele na semana passada. Fim da linha De forma mais preocupante, o dono de um restaurante popular francês disse que teve a extensão do visto negada na quarta-feira por um oficial que simplesmente afirmou: "Isso é porque você é francês". O homem, que pediu que seu nome e empresa não fossem revelados por medo das autoridades, está em pânico. ­ Minha vida está aqui.

Situação de privilégio para os não-chineses deve terminar Muitos ocidentais admitiram desfrutar de uma vida de privilégios, incluindo imunidade em relação às regras que podem complicar a vida dos chineses comuns. Isso está prestes a acabar. Na semana passada, placas em inglês começaram a aparecer nas ruas de Pequim e em prédios modernos orientando estrangeiros que não estão em hotéis a se registrarem na polícia. As regulações ­ que não são novas, mas raramente são reforçadas ­ prometem grandes multas para aqueles que não as obedecerem. O fato de o governo não ter divulgado diretrizes formais sobre as novas regras de visto gerou muitos rumores e incerteza. Segundo agentes de viagem, vários turistas tiveram os vistos negados sem argumentos plausíveis. Cloris Yip, gerente da Smiley Travel, em Hong Kong, citou o exemplo de dois turistas, um suíço e outro alemão. O suíço recebeu um visto de 30 dias, enquanto seu companheiro alemão recebeu um com a duração de cinco dias. Os homens cancelaram a viagem. ­ Talvez o governo chinês não esteja tão feliz com os alemães no momento e achem que alguns queiram protestar durante os Jogos. Mesmo assim, não dá para argumentar ou negociar ­ conta Yip. Poder Os empresários também estão se sentindo menos poderosos. Os executivos em Hong Kong, acostumados a visitarem fábricas ou projetos de construção, agora passam um dia em cada semana esperando por vistos. ­ Todos são afetados pelas medidas e estão muito descontentes ­ comenta Seth Peterson, vice-presidente da Techtronic Industries Co., fabricante de aspiradores de pó e ferramentas no Sul da China. Perguntada sobre as restrições, Jiang Yu, porta-voz do Ministério do Exterior, insiste em dizer que não houve mudanças nas regras para obtenção de visto. ­ Os chineses vão dar boas vindas aos amigos estrangeiros de forma acolhedora, entusiasmada e aberta ­ declarou, na terça-feira. Sem curadores Sejam as medidas temporárias ou não, quem depende da expertise estrangeira para seus negócios diz que o impacto foi real. Segundo Collin Crowell, editor do City Weekend, guia de entretenimento escrito em inglês em Pequim, as novas exigências preocuparam os redatores freelanceres da revista. E Raluca Riquet, promotor de eventos que organiza exposições de arte para o verão, revelar ter dificuldades para achar curadores com vistos válidos. ­ Acharemos uma solução, mas não é tão fácil. O governo quer realmente controlar tudo e todos antes das Olimpíadas. Para nós estrangeiros, é uma mudança muito grande ­ observa Riquet, que tem dupla cidadania francesa e romena.

Talvez o governo chinês não esteja tão feliz com os alemães no momento. Não dá para argumentar Cloris Yip, agente de viagem

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Todos são afetados pelas novas medidas e, é claro, estão extremamente descontentes Seth Peterson, vice-presidente da Techtronic Industries