Título: Integrar não é discriminar
Autor: Santayana, Mauro
Fonte: Jornal do Brasil, 21/04/2008, País, p. A2

No exercício da Presidência da República, o senhor José Alencar ¿ que será o orador oficial, hoje, das solenidades evocativas de Tiradentes em Ouro Preto ¿ teve a palavra de lúcida serenidade que estava faltando ao debate oficial sobre a questão indígena. Disse Alencar que o general Heleno errou, ao contestar a política do governo, mas nele vê, como é correto, um grande brasileiro. Disse mais: o Estado deve integrar, mediante a educação e a saúde, as populações indígenas ao todo nacional.

Se os nossos antepassados cometeram crimes contra as populações indígenas ¿ e os cometeram ¿ não foram só os nativos as vítimas do processo de ocupação. Desde a descoberta, o Brasil se dividia entre ricos e pobres, aos quais se juntariam os mestiços aqui nascidos. As relações eram desiguais, qualquer fosse a cor da pele. É inegável que os nativos foram dizimados, como sempre ocorreu nos processos de conquista, aqui e em toda a América.

Isso não faz dos demais brasileiros, de nossa geração, criminosos condenados a uma reparação pelos crimes dos quais em sua maioria são também vítimas históricas. A cada geração correspondem seus erros, seus acertos, sua sapiência e seus crimes, entre eles o do genocídio. O fato concreto, no caso da Amazônia e, particularmente, de Roraima, é que o Estado nacional não pode estar ausente das vulneráveis fronteiras do Norte.

O processo civilizatório se faz na integração dos povos, e não em sua exclusão. Ainda nesses dias assistimos, pela televisão, a uma cerimônia de casamento entre indígenas, na qual os noivos, em lugar de se purificarem, como no ritual antigo, com água levada dos riachos em vasos sagrados, eram banhados com a água de baldes de plástico. Aonde chegaram o plástico, as antenas parabólicas, as ocas construídas de tijolos e cobertas de telhas, é um contra-senso falar-se em proteção de culturas indígenas.

O cientista Carlos Ernesto Schaefer, que participou de grupo de peritos sobre a Reserva Raposa/Serra do Sol, publicou texto recente (Consultor jurídico, 16/4/2008) em que faz algumas ponderações contra a demarcação contínua. Vamos a elas: (a) as tribos que vivem ali já separadas, os macuxi, tanepaug, patamones, ingarikó e wapixana, têm culturas próprias, e essa heterogeneidade, de acordo com a tese em vigor, deve ser protegida; (b) com a demarcação contínua, não há mais glebas de uma tribo e de outra, mas todas as terras passam a ser de todos, e é fácil prever a luta sangrenta entre as tribos, rivais históricas, para a conquista de mais território; (c) há, em conseqüência de ocupação anterior, cidades já sedimentadas na área (Uirimatã, Água Fria e Mutum), o que trará grave problema jurídico; (d) são ainda previsíveis conflitos de natureza religiosa, uma vez que muitas comunidades se encontram sob influência dos católicos, e outras, dos protestantes.

Os índios fazem guerras, matam seus inimigos e praticam o infanticídio, como ocorre também entre os brancos. É provável que ainda existam, na profundidade da floresta, grupos de canibais. Para que a cultura dos protegidos seja recuperada, os antropólogos seriam coerentes se defendessem também essa prática ritual.

Para quem acha que estamos vendo espantalhos na fronteira, aconselha-se uma visita ao site da empresa e ONG americana ArkhosBiotech.com. Nele é possível assistir a um vídeo de propaganda dizendo que a Amazônia não nos pertence, mas, sim, ao mundo, e pede dinheiro para comprar a floresta. Devo a Wilson Figueiredo o cuidado de chamar-me a atenção para esse desaforo.

É preciso, no entanto, que a parte vociferante da oposição não coloque lenha na fogueira, como está fazendo. Os generais que se opõem à política indigenista já conhecem esse tipo de vivandeiros, que, no passado, conduziram as Forças Armadas a caminho indesejável. Essa oposição deve saber que, quanto pior, pior ¿ mesmo porque nunca o Congresso foi tão desprezado pela opinião nacional quanto hoje. E que a área não se abra aos mineradores, tão nefastos quanto as ONGs na fronteira. A exploração do subsolo deve estar sob o controle direto do Estado nacional.

Uma oposição que, quando no governo, entregou tudo aos estrangeiros ¿ do subsolo ao sistema financeiro ¿ e permitiu a venda de imensas glebas a aventureiros, como o reverendo Moon ¿ não tem autoridade para falar agora em interesse nacional.