Título: O GNV está fadado ao fracasso
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 27/04/2008, Economia, p. E1
O Brasil está muito dependente da Bolívia na questão do gás.
¿ Não temos alternativa. Nem o Brasil nem a Argentina. A Bolívia não tem saída para o Pacífico, se tivesse, os japoneses comprariam. Mas a Bolívia vendeu até mais do que tinha. Gás hoje tem uma procura muito grande no mundo. É um produto essencial. Por isso que a Rússia está rica, porque fornece gás para a Europa. A tendência é aumentar o uso do gás, porque o impacto ambiental é menor. A hidrelétrica precisa cumprir muitas medidas compensatórias. E realmente causa dano ao meio ambiente. Fazer represa é uma coisa imensa.
As pequenas centrais também não vão causar danos?
¿ Serão muito menores. O mundo hoje já se cansou das coisas grandes. Temos que perder essa mania da grandiosidade. O estrago que é fazer uma grande usina é violento. É como explorar minas. Já tem movimentos antibarragens. As licenças ambientais serão complicadíssimas. O gás tem como crescer. As energias eólica e solar também.
O país tem então que diversificar mais a geração de energia?
¿ Não terá mais como depender tanto da energia hidrelétrica. As pessoas não vão deixar. As pequenas hidrelétricas terão espaço se não fizerem represas. No Madeira, vamos fazer turbina bulbo que fica dentro da água e não represa a água. Vamos buscar procedimentos que tenham menor impacto ambiental. Se puder, faremos o mesmo nas PCHs.
De quantos megawatts a mais o Brasil precisaria para sustentar um crescimento de 5% ao ano?
¿ Em média, para cada 1% de crescimento, o país precisa de 1 mil MW. Temos perto de 100 mil MW instalados. É muita energia. O aumento no consumo é pouco superior ao aumento do PIB. É como se precisássemos de quase duas usinas de Santo Antonio, que tem capacidade para 3.150 MW por ano.
O Brasil tem gás para alimentar essas usinas térmicas? Vimos que no ano passado faltou gás nos postos de GNV.
¿ Acho que o GNV deveria acabar mesmo. Melhor usar gasolina. Não tem sentido usar o gás em automóvel. É matéria-prima para produzir energia.
O senhor é contrário ao GNV?
¿ Acho que sim. O que é necessário no Brasil? Energia. Ficar economizando gasolina?
O governo carrega um ônus político de ter incentivado o gás.
¿ Aqui no Rio. Eu fui contra. Meu ponto de vista é que o gás de veículo deve acabar. Está fadado ao fracasso. O gás é material muito nobre. Precisa ser usado para gerar energia. Para encontrar gás nesses novos campos de Júpiter ou Tupi ainda vai demorar pelo menos uns quatro ou cinco anos. É importante para o Brasil e para a Petrobras, mas não adianta a gente achar que no dia seguinte estará disponível, porque não estará. Temos que achar alternativas.
Mas ao apostar em um material que é escasso como o gás alguém vai sair perdendo, não?
¿ Temos uma possibilidade. Estamos fazendo um acordo com o CEG de fazer um porto na região de Sepetiba para importar gás da Argélia, que oferece gás a um preço competitivo. A Petrobras está contra, porque quer monopólio. Petrobras no Brasil é um outro país. É mais forte que o Brasil. É uma empresa tão grande e tão forte, que tem um movimento próprio. Mas acho que Furnas deve entrar nesse mercado. A termelétrica de Santa Cruz pode ser alimentada por esse gás. O gás é uma energia mais barata.
O custo de ligar as usinas térmicas nos primeiros meses do ano foi de R$ 700 milhões. É uma aposta certa?
¿ Térmica a diesel é uma coisa. A gás, outra. Pegar um caminhão de Paulínia para levar ao Pantanal é suicídio coletivo. Eram 150 caminhões por dia. Numa emergência se resolve, mas não pode ser rotina.
A Justiça determinou a demissão de 4.300 pessoas na empresa. Como isso afeta Furnas?
¿ Estamos recorrendo. Uma proposta intermediária, pedindo prazo maior. Se isso for executado assim, pára o Brasil. Pára o fornecimento de energia para o país. Estamos recorrendo e acredito que chegaremos a um bom termo. Ou vamos ao Supremo Tribunal Federal. Estamos tentando negociar.
A polêmica de custo de Itaipu e a reivindicação do Paraguai afeta Furnas?
¿ Acho que isso vai acabar num acordo. Nós somos responsáveis pela transmissão. Mas pode repercutir no preço para o consumidor, já que Itaipu Binacional teria que arcar com qualquer mudança no valor pago ao Paraguai.
Furnas hoje comercializa a energia das usinas nucleares.
¿ Nós compramos e revendemos. É um prejuízo de R$ 600 milhões por ano. Estamos resolvendo isso com a Eletrobrás. Ela pode assumir, se achar importante, o Tesouro banca. Nós que não temos que bancar. Ainda assim tivemos lucro de cerca de R$ 700 milhões, que subiu 86%. O lucro vem da boa administração. A empresa é muito grande. Só não entramos no leilão da Cesp porque o governo não quis. Disse que tínhamos que investir em energia nova, no que tem razão, até.