Título: Tão perto e tão longe
Autor: Niemeyer, José Luiz
Fonte: Jornal do Brasil, 19/04/2008, Internacional, p. A21
José Luiz Niemeyer
Coordenador do Curso de Relações Internacionais do Ibmec/RJ
Qual deve ser o olhar brasileiro sobre as eleições que ocorrem amanhã no Paraguai?
De atenção relativa, vide que o país é pouco relevante na perspectiva sistêmica sul-americana, dispondo de pouca "capacidade" e "vontade" para construir um posicionamento sustentável na região?
De atenção institucional, principalmente porque o passado ainda é espelho dos exageros da Guerra do Paraguai, sangrenta e fundamentalmente assimétrica sob a ótica da ação militar brasileira?
De atenção desatenta, mesmo blasé, resultado da explicitação histórica e conjuntural de uma liderança incontestável por parte do Brasil, seja em um contexto bilateral como em uma panorâmica que extrapola as fronteiras continentais?
Afinal, prestemos ou não atenção ao pleito paraguaio? Quais seriam as variáveis que determinariam uma atenção "correta" sobre as eleições deste domingo em Assunção?
Em primeiro lugar o Brasil é um país por demais complexo para não considerar todos os seus vizinhos de fronteira. A geografia é avassaladora, neste caso. Em segundo plano, o governo eleito será muito mais pautado por ações de governo em proporção às políticas de Estado. Isto porque o sistema político paraguaio se processa, ainda, com mais eficiência a partir das instâncias de governo do que sob uma base racional-estatal legitimamente constituída. Isto é resultado de séculos de construção e reconstrução, sempre precária, das instâncias do Estado, principalmente dos meios alocados para ação estatal formal. Sendo assim, a ação trivial, mesmo corriqueira, do governo paraguaio é aquela de perfil mais estratégico para o Brasil.
Também na perspectiva geoestratégica as variáveis são inúmeras. Umas mais claras; outras em torno de uma nebulosa proposital. Nesta seara proliferam temas de uma agenda nem sempre recíproca: cooperação para o combate ao contrabando; interesses, reais, dos chamados brasiguaios; controle fito sanitário; qualidade da coleta de informação sobre a Tríplice Fronteira; acordo sobre benefícios e custos da administração binacional de Itaipu; entre outros assuntos mais ou menos relevantes e nem sempre tratados na mesma ordem de importância para os dois países.
Sob a vertente da integração regional o Paraguai é Estado-membro do Mercosul. Deve obrigações e proclama direitos. Constrói alianças específicas e busca redirecionar ou sustentar acordos variados. É um sócio. Para o bem e para o mal.
Todavia, verifica-se que a atenção dispensada ao processo eleitoral no Paraguai segue o padrão dos demais relacionamentos do Brasil com alguns dos seus vizinhos menos relevantes na América do Sul, sintetizado em algo próximo do binômio superioridade com responsabilidade. Estes fatores não são, na essência, dicotômicos, mas se tornam de difícil administração, principalmente quanto mais os interesses do Brasil no campo internacional se sofisticam e, ao mesmo tempo, diminui a influência relativa do Paraguai no sistema.
As novas e reais responsabilidades, interesses e percepções acerca das potencialidades do país fazem com que o Brasil opte por estratégias mais abrangentes e de longo prazo. Em diplomacia tempo e recursos são ferramentas escassas e finitas.
A operacionalização de tais meios num mundo de possibilidades variadas faz com que o Brasil tenha que definir escolhas, não voltar atrás e ser, sempre, eficiente.
Em resumo: a maior ou menor percepção brasileira da realidade paraguaia se explica a partir dos interesses do Brasil; e não vice-versa.