Título: Regulação do mercado ainda é tabu
Autor: Exman, Fernando
Fonte: Jornal do Brasil, 14/04/2008, Economia, p. A17

Riscos de inflação e recessão dominam reunião do FMI e Bird. Controle maior é descartado.

Concluída ontem, a reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird) foi marcada pela preocupação com os riscos de inflação e recessão. As causas e os efeitos das turbulências ¿ que deve gerar perdas de aproximadamente US$ 1 trilhão ¿ foram descritos com precisão pelas duas instituições. A discussão sobre os remédios necessários para evitar que a imprudência do mercado financeiro chegue novamente às últimas conseqüências, entretanto, foi tabu. Dirigentes do FMI e do Bird foram cautelosos ao falarem de regulação e supervisão.

¿ Estamos vendo as lições da crise. Ainda é cedo para dizer ¿ desconversou o diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo, Anoop Singh, quando perguntado se um aumento da supervisão do mercado financeiro é recomendável.

Receosos de que a crise prejudique os ciclos de crescimento econômico pelos quais começam a experimentar, os países em desenvolvimento cobraram soluções. O G-24, grupo de países em desenvolvimento que aproveita os encontros do FMI para se reunir, divulgou comunicado exigindo "ações decisivas" dos países ricos para fortalecer o ambiente regulatório e promover o crescimento global de forma sustentável.

Por enquanto, no entanto, o FMI prefere ver as medidas previstas no Acordo de Basiléia implementadas. Reunidos à margem do encontro anual do FMI e do Bird, o G-7, o grupo dos países mais industrializados, levantou a mesma bandeira em comunicado divulgado na sexta-feira.

O argumento das autoridades das duas organizações é sensível para as economias emergentes. Relatório do FMI alertou que o excesso de regulação pode gerar um aperto de crédito maior do que a já esperada redução de fluxo de capitais. A escassez de investimentos transnacionais é causada pelo colapso do mercado de financiamento imobiliário de alto risco dos Estados Unidos, o qual já afeta outros países.

¿ Esta discussão está atrasada no FMI, pois o Fundo estava mais preocupado com a sua própria sobrevivência, com seus problemas financeiros e de representatividade ¿ ironizou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, segundo quem essa discussão sempre é feita em períodos de crise mas é deixada de lado quando há melhoras na conjuntura. ¿ Este é o momento de tomar providências.

O ministro concorda que o Acordo de Basiléia é eficaz na supervisão dos bancos. Ressaltou, entretanto, que faltam mecanismos para controlar as operações de outros tipos de instituições financeiras, como fundos de investimentos.

¿ Deve-se ter regras globais para estabelecer limites para a alavancagem de riscos e também instituições para controlar os mercados financeiros.

As economias emergentes querem participar do debate. Mantega sublinhou que o ideal é que as soluções surjam em um ambiente multilateral, como o FMI. Diretor-executivo para o Brasil do Banco Mundial e representante nacional no G-24, Rogério Studart ressaltou que o país, por ter reformado seu sistema de regulação durante a crise financeira da década passada, pode contribuir nas discussões e mostrar como criar instrumentos de supervisão e garantir mais transparência ao setor.

¿ A discussão de maior regulação deve ser feita passo a passo. Temos que evitar que essas ações prejudiquem e repercutam de forma desfavorável para os países em desenvolvimento ¿ ressaltou Studart. ¿ Em um primeiro momento, os países desenvolvidos devem ter políticas fiscais e monetárias articuladas. Depois, devemos discutir uma nova arquitetura financeira internacional.