Título: Fronteira sobrevive dos sacoleiros
Autor: Arêas, Camila
Fonte: Jornal do Brasil, 14/04/2008, Internacional, p. A21
Esquemas ilícitos sustentam comércio paraguaio em região sem presença forte do Estado.
A pé são 10 minutos. Por R$ 2,10 do ônibus, o trajeto cai para 2 minutos. Pelos R$ 3 cobrados pelos moto-táxis, a fração do tempo apaga a fronteira internacional. Se os escassos 552,40 metros da Ponte da Amizade que divide o Brasil do Paraguai colaboram com a massa de brasileiros vivendo no país vizinho, é a total falta de fiscalização na fronteira que determina a avalanche de sacoleiros atravessando a ponte diariamente com contrabando para revender nas capitais brasileiras. Nem passaporte, nem carteira de identidade são exigidos. Os brasileiros têm trânsito livre no Paraguai. E vice-versa.
Mas as mercadorias, não. Na teoria, a alfândega brasileira é clara: o limite de compras é de US$ 300. Qualquer produto que entre no país deve ser devidamente registrado no posto da fronteira. No entanto, cabe ao brasileiro pedir e preencher a ficha com tudo que carrega, encarar a fila de sacoleiros para declarar seus bens para, então, estar em dia com a aduana. Mais rápido é seguir em linha reta, e atravessar o posto sem qualquer registro porque a probabilidade de ser parado por um policial é quase nula.
Na falta de vigilância, a lei se distancia da prática: só 5% do que entra no Brasil pela Ponte da Amizade é fiscalizado, ou seja, 95% do que passa por aqui pode ser contrabando. E são mais de 10 mil os brasileiros que fazem o trajeto todos os dias.
Os brasileiros "garantem o pão nosso de cada dia", resume o paraguaio Lucio Arias, importador de jaquetas de couro:
¿ São eles quem compram em grande quantidade para revender no Brasil. Nem paraguaios nem argentinos fazem isto. Os brasileiros são a engrenagem de Ciudad del Este.
Filho de libanês nascido em Foz do Iguaçu, o jovem Majed, que trabalha com o pai em uma loja de eletrônicos e não quis revelar seu primeiro nome, explica como está montando o esquema:
¿ Os brasileiros que chegam aqui são laranjas, enviados por grandes comerciantes das capitais, principalmente São Paulo, para passar na fronteira com grandes carregamentos de eletrônico. Tendo em vista que, por exemplo, uma câmera fotográfica que no Brasil custa US$ 500 aqui custa US$ 90, o negócio é muito lucrativo para o chefão paulista, mas pouco para o laranja de Foz, que fica com algo entre R$ 40 e R$ 80.