Título: ONU vê crise global de alimentos
Autor: Motta, Débora
Fonte: Jornal do Brasil, 26/04/2008, Economia, p. A18
Problema ameaça crescimento e segurança mundiais e será discutido em reunião na Suíça.
A alta nos preços dos alimentos já se configura em uma "crise global" e ameaça o crescimento e a segurança mundiais, disse hoje o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon. Ele convocou uma reunião para a próxima semana em Berna, na Suíça, para buscar uma "ação coordenada" imediata contra a crise. Ontem, no Rio, o chanceler Celso Amorim comparou a produção de biocombustíveis ¿ apontada como uma das vilãs da falta de alimentos ¿ com o colesterol.
¿ A ONU está muito preocupada, assim como todos os membros da comunidade internacional ¿ afirmou Ban Ki-moon, na abertura de uma conferência sobre comércio e desenvolvimento, em Gana.
Somente neste ano, os preços do arroz praticamente triplicaram na Ásia, enquanto a insatisfação com os altos custos dos alimentos e dos combustíveis desencadeou violentos protestos em várias partes do mundo. Aumento na demanda por parte de países em desenvolvimento, expansão do cultivo para biocombustíveis e enchentes e secas em países produtores estão entre as razões apontadas para o aumento dos preços.
Com bom humor, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, comparou duas matérias-primas do etanol, a cana-de-açúcar brasileira e o milho americano, ao colesterol:
¿ Etanol é como o colesterol: existe o bom e o ruim. O etanol feito de cana-de-açúcar no Brasil é como o bom colesterol. O ruim provavelmente é o milho. Já o colesterol bom salva.
Amorim destacou a responsabilidade dos EUA na crise.
¿ A melhor contribuição dos países ricos seria eliminar os escandalosos subsídios a agricultores ineficientes. A Rodada Doha é uma oportunidade para isso.
Para o ministro, o etanol pode ser arma no combate à crise dos alimentos, agravada pelos subsídios agrícolas.
¿ O etanol sendo de cana-de-açúcar, utilizando terras que não estão sendo destinadas à agricultura e não substituindo culturas, como arroz, milho e trigo, é uma das soluções para a crise. Contribui para menor emissão de CO² e dá emprego ¿ defendeu. ¿ Temos que produzir mais alimentos e biocombustíveis.
De acordo com estimativas do secretário-geral da ONU, cerca de 100 milhões de pessoas entre as mais pobres, que antes não precisavam de ajuda humanitária, agora não terão condições de arcar sozinhas com os preços de alimentos.
¿ No curto prazo, precisamos combater a crise humanitária que vem afetando os mais pobres ¿ afirmou Ban Ki-moon. Mas a médio e a longo prazos, "a comunidade internacional e seus líderes devem dialogar para ver como podemos melhorar o sistema econômico, o sistema de distribuição e de que forma podemos promover nova produção de produtos agrícolas".
Ban Ki-moon convocou uma reunião para segunda e terça-feiras em Berna, na Suíça, para discutir a crise alimentar. (Com agências)