Título: PMDB racha de novo. Mas já pensa em 2010
Autor: Falcão, Márcio
Fonte: Jornal do Brasil, 04/05/2008, País, p. A4
Quércia comanda a rebelião contra o governo federal.
O início da montagem do quebra-cabeça eleitoral de outubro expôs mais uma vez um dos estigmas que o PMDB faz questão de esquecer: a falta de unidade. Conhecido como um partido de diversos caciques sem hierarquia, o PMDB mostra que para se manter como o partido com maior número de prefeituras conquistadas ¿ em 2004 foram 1.045 municípios ¿ o que mais pesa é a situação regional de cada liderança. Os acordos costurados também deixam claro que as articulações giram em torno do pleito de 2010.
O primeiro sinal do salve-se quem puder peemedebista surgiu em São Paulo. Sem se importar com o plano nacional, a fatia da legenda ligada ao ex-governador Orestes Quércia se uniu ao DEM, principal adversário político do governo Lula. O encaixe fortalece a reeleição do prefeito Gilberto Kassab diante da ainda indefinida candidatura da ministra do Turismo, a petista Marta Suplicy.
Pesou na decisão de Quércia um interesse pessoal: a vaga ao Senado em 2010, a que ele pretendia concorrer com o apoio petista. O PT paulista, por outro lado, preferiu não amarrar nada, uma vez que o senador Aloizio Mercandante (PT-SP) pode tentar manter sua cadeira.
Mais incômodo
Com a recusa petista, Quércia se abrigou com o DEM e foi definido como candidato da aliança DEM-PMDB para o Senado em 2010. Para incomodar ainda mais os petistas, Quércia já fala até em trabalhar pelo governador José Serra na sucessão de Lula em 2010 se o PMDB não tiver candidatura própria, como tem defendido o presidente do partido, deputado Michel Temer (SP).
Há quem ainda sustente que o cenário que se forma em Salvador levou em consideração vontades pessoais para 2010. O PMDB do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, na Bahia, tentou arrancar o apoio do PT à reeleição do atual prefeito João Henrique. Por lá, o PT foi quem não quis, mas Geddel, que trabalhou para a eleição do governador Jacques Wagner (PT), não fez tanta questão assim da manutenção dos petistas na base de João Henrique. Nos bastidores, Geddel começa a articular sua candidatura a governador do Estado em 2010.
Locais e nacionais
Diante do individualismo dos caciques regionais, Temer minimiza a situação.
¿ Nós não interferimos nos diretórios locais e os diretórios locais não interferem nas decisões nacionais. O PMDB local faz a aliança que quiser - desconversa Temer.
Apesar da liberação dos diretórios regionais e do claro recado a Quércia, a Executiva do partido tem se empenhado para amarrar a situação e evitar transtornos na relação com o governo Lula. Temer e outros líderes do partido foram ao Planalto entregar um levantamento nas mãos do presidente Lula que mostra o vôo solo do PT nas eleições de outubro. Os petistas só pretendem apoiar o PMDB em Goiânia, na campanha de Íris Rezende, enquanto os peemedebistas estariam mais generosos, garantindo aliança em nove capitais. Os dados destacam que o PT abandonou o PMDB na busca pela a reeleição lançando candidatura própria em Campo Grande, Porto Alegre e Salvador.
Para estreitar os laços entre os dois partidos e evitar uma nova rota de colisão, agora, fala-se até em conselho permanente do PMDB para garantir uma mesa de debates entre a cúpula do governo e os líderes do partido. A idéia é apontada como uma precaução para evitar qualquer desencaixe que possa atrapalhar uma aliança em 2010 e, principalmente, a governabilidade de Lula no Congresso. Afinal, foi o PMDB que deu fôlego ao governo Lula no Congresso e em contrapartida recebeu seis ministérios, cargos nos segundo e terceiro escalões, as lideranças do governo no Senado, entre outras vantagens.
Para o líder do governo no Senado, Valdir Raupp (RO), as chances de um rompimento são quase nula.
¿ É legítimo cada partido buscar seu caminho. Agora, é preciso cuidado para nenhuma ação gerar mal-estar e isso a direção do partido tem demonstrado - afirma.
O motivo para tanta confiança os peemedebistas não fazem segredo.
¿ Hoje, sem o PMDB ninguém governa - declara Temer.