Título: Dez índios baleados em Roraima
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 06/05/2008, Pais, p. A3
Um grupo armado ligado ao produtor de arroz e prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartiero, feriu dez índios no primeiro confronto dentro da Raposa/Serra do Sol, em Roraima, depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a operação de retirada dos não-índios da reserva e assumiu a responsabilidade pela decisão sobre o decreto do governo, que determina a demarcação em área contínua de 1,7 milhão de hectares. O conflito ocorreu na Vila Surumu, município de Pacaraima, durante invasão de uma área cercada da Fazenda Depósito, controlada por Quartiero, onde os índios ligados ao Conselho Indígena de Roraima (Cir) que defendem a reserva contínua levantavam malocas para iniciar a ocupação. Um deles, o índio ingaricó Glênio Barbosa, ferido no ouvido, estaria em estado grave. Eles nem conversaram. Já chegaram atirando. Estavam encapuzados e em quatro motos disse, em depoimento prestado à Polícia Federal, a índia Tereza Macuxi, mãe de Tiago, um garoto de 14 anos, ferido com um tiro na coxa direita e levado na manhã de ontem para o Hospital Geral de Boa Vista, na capital do estado. Os outros feridos apresentavam lesões em várias parte do corpo, algumas delas provocadas por estilhaços de bombas caseiras. Armamento pesado O conflito começou por volta das 8h40. Assim que a notícia da presença dos índios chegou à sede da fazenda, os homens de Quartiero reagiram: uma caminhonete e quatro motoqueiros, encapuzados e portando espingardas chumbeiras, armas de cano longo e bombas de fabricação caseira, aproximaram-se do grupo. Pelo relato das testemunhas não houve diálogo. O prefeito afirmou mais tarde que seus funcionários reagiram à invasão. Seguindo ele, os índios estavam usavam arco, flexa e pedaços de pau. O palco do conflito é uma nova extensão de terra cercada, colada à Fazenda Depósito, onde o líder dos arrozeiros construiu uma guarita de vigilância e abriu estradas para controlar e anexar a área. DESRESPEITO Cafeteira criticou o colega Álvaro Dias Agência Senado Os cerca de 100 índios que trabalhavam em mutirão para construir as malocas pretendem instalar nas proximidades da fazenda uma nova comunidade, a Renascer, desmembrada da Vila Maturuca, ambas no município de Pacaraima. Todos eles pertencem ao Cir, a entidade que lidera o movimento pela demarcação em área contínua e já havia ameaçado fazer a retirada dos não-índios da Raposa/Serra do Sol caso o STF defina a reserva em ilhas, anulando integralmente o decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A Polícia Federal abriu inquérito policial para apurar as circunstâncias do conflito e identificar os motoqueiros encapuzados que dispararam contra os índios. Há suspeitas de que sejam pistoleiros profissionais contratados para fazer segurança aos arrozeiros. Um grupo ligado ao Cir passou à tarde na Superintendência da PF em Boa Vista formalizando a denúncia. Os índios acham que só a prisão dos agressores e o desarmamento dos homens contratados por Quartiero poderá devolver à tranquilidade à região até que o STF anuncie uma decisão sobre o decreto homologatório. Até o final da tarde de ontem, apesar do clima de tensão, os índios permaneciam no local para terminar a construção das malocas. Um dos coordenadores do Cir, Júlio Macuxi, disse que, apesar das ameaças, os índios vão manter a ocupação. Segundo ele, a comunidade precisava ampliar a a área e se sentia sufocada pela ação de Quartiero, que teria anexado a nova área no ano passado. Macuxi disse que a ação armada foi uma agressão ao STF e afirmou que fortalece a luta das comunidades que querem a demarcação em área contínua.
Eles (os agressores) nem conversaram. Já chegaram atirando. Estavam encapuzados e em quatro motos
" PROMESSA Quartiero diz que aguarda STF, mas avisa: se defenderá Divulgação
Ministro critica STF. Arrozeiro garante que haverá revide RIO E BRASÍLIA O ministro-chefe da Secretaria de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, criticou, ontem, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), de determinar a paralisação da retirada de não-índios na reserva indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima, no início de abril. Em palestra no Rio, Vanucchi afirmou que o Poder Judiciário é "defasado" em relação ao Executivo e ao Legislativo brasileiro. O Judiciário é hoje o Poder republicano mais defasado do país. Não concordo com a interrupção da ocupação da Raposa/Serra do Sol, com a interrupção das discussões sobre pesquisas com células-tronco (adiada em março por causa de um pedido de vistas do ministro do STF Carlos Alberto Direito) declarou o ministro. Defesa O líder dos arrozeiros de Ro- raima, Paulo César Quartiero, disse ontem, que seus funcionários dispararam tiros contra índios em defesa a uma tentativa de invasão à fazenda Depósito, de sua propriedade, que fica dentro da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol. De 50 a 100 índios invadiram a fazenda e meu pessoal foi pedir para que se retirassem. Também estamos com seis feridos em Pacaraima- afirmou. O arrozeiro disse que os índios aproveitaram a desmobilização de seu grupo após a suspensão da Operação Upatakon 3, que visava retirar os não-índios da reserva. Quartiero explica que aguarda uma manifestação favorável do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a permanência dos produtores na área, mas garantiu que não aceitará agressões. E garantiu: Com certeza nós vamos nos defender (Folhapress/Abr)
MEMÓRIA JB |
BARRIL DE PÓLVORA Em sua edição de 2 de abril, o JB informava que a Reserva Raposa/Serra do Sol era uma espécie de barril de pólvora e alertava para os riscos de de conflito armado com o acirramento dos ânimos entre índios e arrozeiros. Também chamava a atenção para a probabilidade de reação da área militar pelo fato da disputa envolver uma área de fronteira. Uma semana depois, o general Augusto Heleno criticou a política indigenista, abrindo um princípio de crise entre o Palácio do Planalto com a área militar, superada depois que o governo anunciou aumento de salário para as Forças Armadas. A tensão e os riscos ainda permanecem.