Título: Em Salvador, racha atinge partidos que apóiam Lula
Autor: Bruno, Raphael
Fonte: Jornal do Brasil, 02/05/2008, País, p. A7
PT abandona prefeito do PMDB e pretende lançar candidato próprio.
Brasília
A seis meses das eleições municipais, a disputa em Salvador já é uma das mais polêmicas e acirradas do país. Pelo menos cinco candidatos aparecem com chances reais de vitória nas sondagens de intenção de voto realizadas até o momento. Entre rupturas de parcerias no plano federal, projetos de poder ambiciosos e dúvidas que pairam sobre o futuro do carlismo na cidade e no Estado, o terceiro município mais populoso do país promete protagonizar uma das mais aguerridas campanhas eleitorais dos últimos anos.
O grande impulso para o acirramento das paixões partidárias na cidade se deu com a decisão do PT municipal de abandonar a aliança com o atual prefeito, João Henrique (PMDB), de olho na candidatura própria. As duas legendas construíam uma relação sólida nos últimos anos, mas o fim do namoro não foi pacífico.
Alguns líderes do PT local e nacional até prezavam pela manutenção da parceria, mas o entendimento da base do partido foi o de que o governo João Henrique não era bem avaliado pelos moradores de Salvador. Nas pesquisas, ele aparece com pouco mais de 15% das intenções de voto. A tentação de lançar candidato próprio, provavelmente o deputado federal Nelson Pellegrino, derrotado na disputa pela prefeitura de Salvador em três ocasiões anteriores, foi mais forte. O parlamentar petista não passa dos 5% nas pesquisas.
"Traição forte"
Para viabilizar a candidatura própria, o PT rompeu com a administração de João Henrique. Entregou o comando de quatro secretarias municipais e mais de 200 cargos na prefeitura. João Henrique acusou o golpe. Classificou como "traição muito forte" a atitude do PT.
A polêmica ganhou força quando o ex-ministro José Dirceu publicou artigo em seu blog criticando a decisão do diretório estadual baiano. Segundo Dirceu, a iniciativa criava a impressão de que o PT está sempre disposto a ser apoiado, mas não deseja apoiar ninguém. As declarações geraram mal-estar entre líderes petistas locais, entre eles o governador Jaques Wagner, que repreendeu prontamente o ex-ministro.
A decisão do PT também gerou fraturas na relação entre o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, e o governador petista. Geddel, homem forte do PMDB na Bahia, também não poupou críticas à decisão dos petistas. O ministro lembrou que, em 2006, o PMDB, mesmo com candidato mais competitivo na manga, não se acovardou em apoiar Wagner quando este tinha menos do que 10% das intenções de voto. Geddel chegou a afirmar mais de uma vez que, dali em diante, não havia mais alinhamento automático entre os dois partidos.
Recado claro
Para o círculo político baiano, o recado de Geddel foi claro: em 2010, não apoiará a reeleição de Jaques Wagner. O PMDB deve apresentar nome próprio. Nos bastidores, especula-se que esse nome seria o do próprio Geddel, que usaria o incidente como pretexto para levar adiante declarado projeto pessoal de governar o Estado.
Para completar, outros partidos da base de João Henrique também pularam do barco em naufrágio. Nessa lista aparecem o PSDB, que apresenta a candidatura do ex-prefeito Antônio Imbassahy, o PSB, que deve concorrer às eleições com a deputada federal e também ex-prefeita Lídice da Mata, o PCdoB, que tentará conquistar a prefeitura de Salvador com a vereadora Olívia Santana, além do PV. O candidato tucano oscila entre 15% e 20% das intenções de voto. A deputada do PSB para na faixa dos 10%. Santana não passa dos 2%.
A herança carlista, hoje afastada de todas as principais esferas de governo, será representada pelo deputado federal Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM), ACM Neto. O jovem parlamentar, que vibra com a desagregação do governo de João Henrique, goza de prestígio elevado entre os caciques do partido e é visto como um potencial sucessor do avô. Recebeu votações expressivas nos dois mandatos consecutivos que disputou e é o líder da legenda na Câmara Federal. Desponta bem nas pesquisas, próximo aos 20% das intenções de voto.
Contudo, ao menos por enquanto, a grande sensação da campanha tem sido o comunicador Raimundo Varela (PRB). O apresentador ocupa o primeiro lugar em todas as sondagens realizadas até o momento, superando ACM Neto e Imbassahy em alguns pontos percentuais.
Alçado pela popularidade de seu programa na televisão e rádio, Varela luta, no entanto, para se livrar das comparações entre sua candidatura e a do ex-prefeito Fernando José. Assim como Varela, Fernando também era um homem de sucesso na mídia e apresentava o Balanço Geral, da Rede Record. Por coincidência, Varela é o titular do mesmo programa. Fernando José foi eleito para a prefeitura de Salvador, em 1989.