Título: Oportunidade para a mudança
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 02/05/2008, Opinião, p. A8

São plenamente compreensíveis as eufóricas reações à conquista do investment grade pelo Brasil. Suas razões já foram extensamente apresentadas nas horas subseqüentes ao anúncio da agência de classificação de risco Standard & Poor¿s, que elevou o país a um patamar inédito na história. A reportagem de hoje do correspondente do JB em Nova York, Osmar Freitas Jr., acrescenta números concretos aos prognósticos otimistas: prevêem-se, para os próximos 12 meses, mais US$ 30 bilhões de investimentos estrangeiros no Brasil, atraídos pela credibilidade adquirida pelo país entre os investidores internacionais. Soma-se ao resultado da Bovespa na quarta-feira, que sedimentou a liderança das bolsas brasileiras no índice mundial de rentabilidade de ações, e à negociação em alta dos papéis brasileiros em Nova York.

Convém sublinhar, no entanto, que tamanha conquista ¿ em particular, a chancela de que o Brasil constitui um destino seguro para capitais de todo o mundo ¿ deve servir de estímulo para a resolução de problemas graves que atormentam a vida de quem deseja fazer negócios no país. Se é verdade que a pletora de boas notícias (os superávits comerciais, o encolhimento da dívida, a condução independente do Banco Central, entre outras) ilumina o futuro brasileiro, também é verdade que exigem a modernização plena das relações capitalistas. Infelizmente, neste terreno, embora certas mudanças tenham permitido avanços consideráveis, o Brasil ainda convive com situações inadmissíveis para uma nação que deseja ser um global player de fato.

Conforme o JB tem sublinhado com freqüência neste espaço, já passou da hora de o país resolver realizar, de vez, as imprescindíveis reformas tributária e trabalhista. Também o governo ainda deve uma mudança concreta no controle dos gastos públicos, capaz de fazer o país ter uma política antiinflacionária menos dependente do controle monetário ¿ isto é, dos juros altos.

A tais tarefas é preciso acrescentar uma outra, igualmente relevante: romper as travas que inibem a competitividade dos negócios no Brasil. O Banco Mundial já revelou que abrir um negócio aqui pode levar até 152 dias ¿ enquanto o tempo médio no mundo é de 43 dias. Só o Chade excede o Brasil em número de etapas necessárias para a abertura de empresa. O excesso de burocracia, o alto custo do emprego e a carga tributária elevada explicam, por exemplo, a posição do Brasil no ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial. Somos o 66º em matéria de competitividade global numa galeria de 125 países. O Brasil fica atrás de Chile e México, e dos próprios Brics ¿ a sigla que reúne os grandes emergentes (além do Brasil, China, Índia e Rússia).

Só com a superação dessas travas e a manutenção dos alicerces sedimentados nos últimos anos se poderá confirmar os prognósticos otimistas em relação ao Brasil ¿ não são poucas as vozes que o colocam como potência no médio prazo. Temos a vantagem de um ambiente institucional mais consolidado do que os demais integrantes dos Brics. É o único país continental que emerge para o desenvolvimento econômico em condições de normalidade democrática. Não conta com o unipartidarismo e a ilimitada coação da China. Não exibe a corrupção econômica e política como iniciativa de Estado da Rússia. Também falta ao Brasil o conformismo de uma sociedade de extrema estratificação social como é o caso da Índia.

Que o Brasil enxergue na elevação da classificação de risco uma notável oportunidade de mudança. O novo patamar internacional adquirido pelo país escancara as portas para novos investimentos, além de baratear o custo de financiamento para as empresas brasileiras. Mas só um ambiente propício à sustentação dos negócios confirmarão a fartura prometida.