Título: Ensino precário, futuro em risco
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 05/05/2008, Opinião, p. A8

Relatório de 66 páginas divulgado semana passada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) evidenciou mais uma vez a fragilidade do Brasil na área de ensino. O país ficou na 76ª posição no ranking da educação básica, entre 129 avaliados. Com o Índice de Desenvolvimento de Educação para Todos (IDE) de 0,901, o Brasil se encontra entre os 53 países que figuram numa posição intermediária quanto ao alcance de metas como universalização do ensino primário, alfabetização dos adultos, paridade entre os sexos e qualidade da educação. Muito aquém, portanto, dos desafios que se impõem neste século.

Com base em dados de 2005, o documento ajuda a identificar carências e a traçar um mapa em direção às metas educacionais propostas, no ano 2000, a partir de acordo firmado por 164 países. Reconhecendo que as desigualdades educacionais eram inaceitáveis, os signatários (entre eles, o Brasil) comprometeram-se com a efetiva inclusão dos que estavam em desvantagem ¿ sobretudo as mulheres, os mais pobres, os mais vulneráveis e outros grupos socialmente desfavorecidos. Pelos termos do acordo, o objetivo maior (a educação para todos) deve ser alcançado já em 2015.

O texto, contudo, destaca que ainda são grandes as desigualdades entre pobres e ricos no acesso à educação infantil no Brasil. Em 2005, das crianças de até 3 anos de idade entre os 20% mais pobres, apenas 8,6% estavam em creches. Entre os 20% mais ricos, esse percentual era de 27,6%. Na faixa etária de 4 a 5 cinco anos, os percentuais eram de 52,2% em 2000 e 85,7% cinco anos depois. Na área da educação pré-escolar, o relatório mostra que, em 2005, o atendimento a crianças de até 3 anos era o que ainda se apresentava mais incipiente no país, com o acesso de apenas 13% dessa parcela da população ao ensino ¿ embora isso represente um pequeno aumento da taxa em relação à de 1999, que era de 9,2%. Por outro lado, a taxa de sobrevivência na quinta série em 2005 foi de 80,5%, inferior à de 2001, quando atingia 84,5%. Isso significa que de cada 100 alunos que entram na primeira série do ensino fundamental, apenas 80 chegam à quinta série.

Quanto à infra-estrutura, o relatório da Unesco atesta que em muitas escolas brasileiras, especialmente na periferia dos grandes centros e da zona rural, as condições são precárias: as salas são exíguas e desconfortáveis. E embora a proporção de alunos por professor tenha sido aliviada (com a diminuição de 26 estudantes por mestre em 1999 para 21 em 2005), há ainda no país número expressivo de professores sem a habilitação formal exigida para o nível que ensinam.

Entre triunfos e reveses, fica claro que o país vem conseguindo significativos avanços na área de ensino, mas também é patente que a velocidade desses aprimoramentos segue bastante abaixo do esperado. Sobretudo quando se leva em conta o futuro nível de demanda do mercado de trabalho brasileiro, em tempos de investment grade e a possibilidade de injeção de capitais em empresas nacionais. Sem boas escolas, não haverá mão-de-obra qualificada para as vagas que tendem a surgir.

Nesse sentido, a discussão não deve girar apenas em torno da educação básica, mas abrir-se também aos ensinos técnico e universitário. É preciso, ainda, aproximar o aprendizado curricular das reais necessidades do país. A empresa privada tem de ser chamada à parceria. O empresário precisa encarar os laboratórios e centros de pesquisa da universidade como sementeira de talentos para a vida produtiva, e não apenas canteiro de láureas acadêmicas. Só assim evitaremos o desperdício de novas gerações de estudantes.