Título: Desenvolvimento exige educação
Autor: Coelho, Edilson
Fonte: Jornal do Brasil, 05/05/2008, Economia, p. A17
Economista mostra como mão-de-obra mal preparada reduz a competitividade do Brasil.
São Paulo
O gaúcho Gustavo Ioschpe é um privilegiado num país em que maioria da população é pobre. Filho de família rica, não precisou enfrentar as péssimas escolas públicas. Estudou nas melhores escolas brasileiras e graduou-se nos Estados Unidos. Fez Ciência Política e Administração Estratégica pela Wharton School, na Universidade da Pensilvânia, e mestrado em Economia Internacional e Desenvolvimento Econômico pela Universidade de Yale. Apesar dessa formação, o economista está longe ser um acomodado quando o assunto é educação. Faz críticas ao sistema educacional, colocando o dedo em assuntos espinhosos.
¿ Filhos de famílias com alto poder aquisitivo têm de pagar universidade pública ¿ afirma. ¿ É ridículo favorecer uma elite brasileira num país pobre como o Brasil.
Além disso, comenta, o número de matrículas na universidade brasileira é inferior ao de países como Chile, Venezuela, Peru e Uruguai, que não são modelos de desenvolvimento. Para Ioschpe, o fracasso do sistema educacional é de responsabilidade não só dos professores, mas também dos gestores públicos e da sociedade brasileira. Nesta entrevista, ele analisa os problemas da educação e sugere o que pode ser feito para resolvê-los.
É possível a educação brasileira sair desta letargia?
¿ Acho que não só é possível, como é obrigatório. A questão educacional brasileira hoje é fundamental para a sobrevivência nacional, para a competitividade econômica. Deixou de ser uma questão que importa apenas pela educação e passou a ser uma questão que tem uma série de outras ramificações econômicas, mas também de bem-estar social. A educação tem uma ligação direta com a diminuição de violência, melhorias de saúde, enfim, uma série de resultados positivos que o Brasil não pode se dar o luxo de ignorar. E o país está numa posição na área econômica de competitividade internacional em que a defasagem educacional ameaça, se não impede, as possibilidades de desenvolvimento.
Por quê?
¿ Nos últimos 25, 30 anos, a partir da década de 1980, a maioria dos países desenvolvidos entendeu que a sua competitividade na produção de bens de alto valor agregado, para os quais a formação, o capital humano da população, é a ferramenta definitiva, imprescindível. Partiu-se, então, para um movimento de massificação do conhecimento nos seus níveis mais altos, ou seja, até o ensino superior. O Brasil ficou para trás. Uma pesquisa do ano 2000, com dados um pouco defasados, mostra que, se se comparar o número de pessoas com diploma universitário da população adulta do Brasil em relação a vários outros países, a diferença é de 1, 2, 3 pontos percentuais. Com exceção da Inglaterra e dos Estados Unidos, que tinham 17% e 25%, respectivamente, enquanto o Brasil, 8%. Inglaterra e Estados Unidos já eram países que com público universitário um pouco maior. Mas, se compararmos com Tailândia, Malásia, Chile, Argentina, Itália e França, o Brasil tem 8% e esses países, 9%, 10%. Basicamente o mesmo patamar.
Então o Brasil está bem na área universitária?
¿ Quando se compara a taxa de
matrícula universitária atual, a diferença deixou de ser 1 ou 2 pontos para ser uma, duas, três ordens de grandeza. A taxa de matrícula universitária no Brasil hoje está na casa de 20%. Nos países desenvolvidos já está perto de 60%, com alguns países caminhando rapidamente para a universalização do ensino superior, como EUA, Finlândia, Coréia. Mas, mesmo quando a comparação é feita com países que têm tradição cultural e nível de renda parecido com o brasileiro, a situação é muito perigosa. Chile, Venezuela, Peru, Uruguai, que estão longe de serem modelos de países em desenvolvimento, têm o dobro da taxa de matrícula em relação ao Brasil. Essa defasagem começa a refletir-se agora com a importação de mão-de-obra. Quando se olham dados de produtividade da Organização Internacional do Trabalho, nota-se que o Brasil tem uma das mais baixas taxas de produtividade por trabalhador e a série histórica em declínio.
O fazer com a defasagem brasileira nos três níveis de ensino?
¿ A defasagem no universitário é um sintoma da defasagem de todo o processo. O primeiro problema é na alfabetização, que é uma competência, vamos dizer assim, uma tecnologia que já foi dominada pelos outros países ¿ em alguns casos há mais de 100 anos ¿ e na qual o Brasil ainda patina. Só 28% da população adulta brasileira são plenamente alfabetizados. O resto está em níveis diferentes de analfabetismo. Quase três quartos da população brasileira são analfabetos. Quando se compara essa realidade à de alguns países em que três quartos da população estão na universidade, o Brasil fica numa situação bastante precária.
Há jeito para isto?
¿ Não só tem jeito, como acho obrigatório que tenha jeito. Mas o que tem que se fazer é o contrário do discurso normalmente ouvido na mídia. A questão de investimento na educação no Brasil não é muito relevante, o Brasil investe basicamente o mesmo que outros países, inclusive desenvolvidos ¿ que é em torno de 4%, 5% do PIB ¿ mas investe muito mal. Em termos de montante é um valor razoável. O problema começa na primeira série do ensino fundamental. Não se consegue alfabetizar as crianças e isso vai virando uma bola de neve. Essas crianças têm má formação. Por conta disso, a maioria delas acaba abandonando a escola. Daqueles que sobrevivem, poucos chegam ao ensino superior e, dos que chegam, muitos vêm com uma capacitação deficiente. É daí que são formados os professores da nova geração, que vão ser professores da geração seguinte e a coisa vai se perpetuando.
Seria verdade que a educação brasileira só vai melhorar quando os políticos forem obrigados a colocar seus filhos na escola pública?
¿ Se a elite brasileira ¿ quando digo elite, não são os 2%, 3% mais ricos que sempre vão colocar os filhos nas escolas particulares ¿ não tiver seus filhos nas escolas públicas, dificilmente se importará com ela a ponto de devotar tempo, recursos e de se preocupar a qualidade do ensino e da educação. É importante ver políticos preocupados com a qualidade da educação. Acho que é muito importante que esse setor esteja preocupado com a qualidade da educação, que saiu da escola pública, volte para a escola pública. Em segundo lugar, e essa é um pouco também a minha batalha, de convencer mesmo as pessoas que têm o nível de renda muito mais alto de que, mesmo que os filhos não estudem na escola pública, é preciso ter uma escola pública de qualidade. Porque o professor que ensina o filho dele vai ter passado muito provavelmente pela escola pública, o funcionário que vai trabalhar no negócio dele vai se formar em escola pública, os concorrentes dele no mercado externo vão ter pessoas treinadas nas suas escolas públicas com nível de qualidade muito maior. Não é mais aceitável que as pessoas com nível de renda mais alto, os empresários mais ricos, se despreocupem da qualidade da educação brasileira. Acho que agora essa compreensão chegou, tanto que há, por exemplo, iniciativas como essa agora do "Todos pela Educação", de grandes empresários, que se deram conta de que a formação de capital humano é absolutamente importante para o sucesso das suas empresas e para o desenvolvimento do país.
A educação traz um enorme benefício direto, mensurável. Então é bom que ela seja tratada como investimento, e que as pessoas olhem para a educação como uma ferramenta que vai render frutos.