Título: Inflação, risco maior para dirigentes dos bancos centrais
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Fonte: Jornal do Brasil, 05/05/2008, Economia, p. A18

A inflação já é uma ameaça maior à economia mundial que o risco de recessão. Embora poucos se arrisquem a dizer que o pior da crise iniciada no ano passado nos Estados Unidos tenha passado, a escalada dos preços é a principal preocupação dos presidentes de bancos centrais reunidos em Basiléia, na Suíça.

Há dois meses, o agravamento da crise nos EUA, a forte queda do dólar e a preocupação com os efeitos globais de uma recessão na maior economia do mundo dominaram o encontro dos banqueiros na sede do Banco de Compensações Internacionais (BIS). Agora, a prioridade passou a ser conter a inflação.

¿ Não há dúvida de que hoje fala-se muito mais sobre inflação do que numa possível recessão profunda ¿ disse um banqueiro que participa das reuniões na Suíça.

A disparada nos preços dos alimentos, que pressionam a inflação, além de causar instabilidades sociais, é um dos temas em discussão entre os banqueiros. Eles consideram que o principal motivo do encarecimento de alimentos como o arroz, o trigo e o milho, é a maior demanda em países emergentes, como a Índia, a China e o Brasil, mais que a especulação.

Na última sexta-feira, o novo relator da ONU para Direito à Alimentação, Olivier de Schutter, criticou a comunidade internacional por não conter a ação dos especuladores, a quem atribuiu boa parte da culpa pela crise mundial dos alimentos.

¿ Nada foi feito para evitar a especulação sobre as matérias-primas, apesar de ser previsível que os investidores se voltariam para esses mercados após a queda nos mercados de ações ¿ ressaltou Schutter.

O presidente do BC, Henrique Meirelles, que participa da reunião em Basiléia pela primeira vez após a reclassificação do Brasil para grau de investimento, recebeu ontem elogios de seus colegas, no primeiro dia de consultas do BIS. A nova classificação de risco do Brasil, feita pela agência Standard & Poor"s, na quarta-feira passada, tende a representar o ingresso de mais capital de longo prazo no país, segundo autoridades monetárias presentes à reunião.

O controle da inflação pelo Banco Central do Brasil tem sido considerado um dos principais motivos de o país ter recebido na semana passada o grau de investimento de uma agência de risco.

A escalada da inflação deve reforçar a política do Banco Central Europeu, que vem resistindo a cortar os juros na zona do euro, apesar da desaceleração econômica observada na região. No dilema entre o combate à inflação, que atinge os mais altos níveis da última década na Europa, e o estímulo à economia, que deve crescer menos de 2% neste ano, o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, deve ficar com o primeiro.

Pelo clima no primeiro dia de reunião do BIS, essa deve ser uma prioridade compartilhada pelos demais banqueiros.