Título: Dívida impede Brasil de obter nota
Autor: Monteiro, Viviane
Fonte: Jornal do Brasil, 07/05/2008, Economia, p. A17
Agência Moody¿s aponta alto gasto público como empecilho para não conceder grau de investimento.
Brasília
A agência de classificação de risco Moody¿s Investors Service ainda deve demorar alguns meses para seguir os passos da Standard & Poor¿s ¿ que, na quarta-feira, elevou o Brasil para o patamar de grau de investimento, indicando que o país é um destino seguro para aplicações, pois teria condições de honrar suas dívidas. Um dos principais motivos é a dívida pública brasileira, que representa cerca de 47% do PIB, e a manutenção dessas despesas em patamar alto.
Segundo Mauro Leos, analista de crédito sênior da Moody¿s, esse tempo será necessário para avaliar melhor como o Brasil se comporta em momentos de adversidade ¿ por exemplo, uma recessão nos EUA:
¿ Para a determinação da nota, não basta que o país esteja caminhando na direção correta neste momento. O que importa é saber se conseguirá manter a rota no caso de algum problema acontecer.
"A informação disponível confirma o que os indicadores da dívida pública do Brasil estão fora de linha com os parâmetros para grau de investimento e, em alguns casos, também em relação ao grupo que não é grau de investimento", afirma a equipe de analistas da Moody¿s. "Nestas condições, a ausência de fatores que possam realmente compensar os riscos associados ao relativamente alto débito governamental constrangem as perspectivas de uma melhora no rating", acrescenta a agência em nota.
Na semana passada, a agência Standard & Poor¿s revisou para cima o rating concedido ao Brasil, melhorando a classificação geral para grau de investimento. Em comunicado oficial, a equipe de analistas da agência também manifesta preocupação com a dívida brasileira mas ressalta outros fatores, como o alto nível das reservas internacionais, para justificar a decisão.
Outra agência influente, a Fitch, já confirmou que reavalia a nota de risco brasileira. No mercado já se especula que essa empresa pode anunciar novidades sobre o rating brasileiro no curto prazo. Rating é a opinião sobre a capacidade de um país ou uma empresa saldar compromissos financeiros. É sempre aplicado a títulos de dívida de algum emissor. Se uma empresa quer captar recursos no mercado e oferece papéis que rendem juros a investidores, a agência prepara a avaliação desses títulos, baseado nas condições do emissor, para que potenciais compradores avaliem os riscos.
Câmbio
O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, acredita que o Brasil deve ter grandes benefícios com o recebimento de grau de investimento, concedido pela Standard & Poor¿s na semana passada, e que uma possível enxurrada de dólar no país não preocupa o governo federal. Isso porque as contas externas do balanço de pagamento e o câmbio tendem a se ajustar ao longo do tempo.
¿ Vivemos em um regime de câmbio flutuante e nesse regime as contas do balanço de pagamento tendem a se equilibrar, e o câmbio a se ajusta ¿ avalia o secretário. Uma das conseqüências do investment grade é reduzir os custos de capital e do financiamento da dívida pública e, com isso, estimular uma maior solidez nas contas fiscais do país.
¿ Eu acho que é o conjunto das políticas públicas, envolvendo as políticas fiscal e monetária e o compromisso que o governo tem com a solidez macroeconômica ¿ declarou, quando perguntado sobre o fato da agência de classificação de risco, ao conceder a nota ao país, ter elogiado a política monetária e criticado a política fiscal.
Appy disse que a agência elogiou as mudanças estruturais, o compromisso do governo com a estabilidade dos preços, a solidez das contas externas, que foram importantes para obtenção do grau de investimento. Appy discorda de que o Brasil só recebeu o grau de investimento principalmente pelo fato de a política monetária está sendo bem conduzida.
¿ Vejo mais na imprensa interna do que na internacional a discussão de que o responsável pelo grau de investimento é a política monetária.
O secretário admitiu, entretanto, existir a preocupação do governo de garantir a competitividade das empresas nacionais, fator que deve ser contemplado na nova política industrial, a ser divulgada no dia 12.