Título: Perguntas ainda sem respostas
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 09/05/2008, Opinião, p. A8
Segundo relatos emitidos de Brasília, a chefe da Casa Civil, Dilma Rouseff, teve ontem a rotina de trabalho alterada desde o momento em que chegou ao Palácio do Planalto. Colegas ministros e assessores mais próximos fizeram questão de cumprimentá-la pelo bom desempenho durante o depoimento que prestou na quarta-feira à Comissão de Infra-Estrutura do Senado ¿ um elogio coletivo compartilhado por boa parte das análises publicadas na imprensa.
No fim de noite, contudo, a euforia foi neutralizada pelo anúncio do resultado da sindicância interna da Casa Civil sobre o vazamento do dossiê com gastos do ex-presidente Fernando Henrique : o funcionário José Aparecido Nunes Pires, secretário de Controle Interno da Casa Civil vazou as informações, segundo a sindicância e a Polícia Federal. Militante do PT, foi levado ao Planalto por José Dirceu, o antecessor de Dilma. As duas investigações descobriram que houve uma troca de mensagens eletrônicas entre José Aparecido e o servidor do Senado André Fernandes, assessor do tucano Álvaro Dias (PSDB-PR). Tanto a PF quanto a sindicância interna têm evidências de que, em uma dessas mensagens, foi anexada a planilha de 28 páginas com gastos editados e comentados de FH, Ruth Cardoso e ex-ministros.
Por ora, nada indica que há participação de Dilma Rousseff no episódio. Com a notícia, porém, o caso do dossiê volta a adquirir a musculatura perdida com o depoimento da ministra no Senado. Dilma saíra maior do que entrara na Comissão do Senado. Inclusive seu nome passou a estar, definitiva e prematuramente, lançado à sucessão presidencial de 2010. Por fim, é preciso reconhecer que Dilma foi beneficiada pela inabilidade de integrantes da oposição. Afinal, coube ao líder do DEM, José Agripino Maia, fazer referência a uma entrevista concedida pela ministra, na qual ela contou ter mentido às forças da repressão militar. E questionar sobre a possibilidade de voltar a mentir. "Eu fui barbaramente torturada, senador", respondeu-lhe Dilma. "Qualquer pessoa que ousar falar a verdade para os torturadores entrega os seus iguais. Eu me orgulho muito de ter mentido na ditadura, senador". A simbologia dessas palavras e o tom com que a ministra as tratou tornaram modestas as intervenções seguintes dos senadores.
O que se viu a seguir foi a exibição detalhista do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com mapas repletos de linhas cruzando de Norte a Sul do Brasil, com obras de rodovias, ferrovias, hidrelétricas e portos, cujas imprecisões e equívocos só seriam detectados no fim do dia. O objetivo foi atingido: atraiu-se o debate para o PAC e mesmo senadores da oposição usaram o tempo para pedir detalhes dos projetos em seus Estados.
Ainda antes da divulgação do responsável pelo vazamento, já estava evidente a lacuna aberta deixada por Dilma para o futuro. A ministra declarou-se favorável à divulgação periódica das despesas pessoais do presidente, antecipando que o atual ocupante do cargo pretende tomar a iniciativa de fazê-lo no primeiro dia em que deixar o governo. Disse defender a idéia em nome da transparência, sugerindo que os antecessores deveriam fazer o mesmo. Nisto, a ministra não conseguiu desmentir os registros dos computadores da Casa Civil nem explicar a transposição das despesas sobre FH no banco de 20 mil dados para as páginas do dossiê.
Com o nome de José Aparecido vindo à tona, restam certas perguntas: de quem partiu a ordem para a montagem do dossiê (ou outro nome que se dê ao documento)? Foi um ato conduzido à revelia da ministra? Dilma havia sustentado a tese de que do banco de dados não nasceu um dossiê, citando o caráter público das informações divulgadas. Se assim for, o vazamento não configuraria crime? Mais: se não há sigilo, o resultado das investigações não conduzirá a nenhuma punição? O Palácio do Planalto deve tais respostas.