Título: O seleto grupo dos bons pagadores
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Fonte: Jornal do Brasil, 01/05/2008, País, p. A2
A crise americana e a turbulência mundial, em parte, beneficiaram a conquista do grau de investimento pelo Brasil ontem. A Standard & Poor"s, principal agência de classificação de risco americana, elevou a nota do país para BBB- e pegou o mercado de surpresa, que só esperava a mudança no segundo semestre. Para especialistas, o país agora pode se firmar como um destino privilegiado de investimentos, diante do cenário externo turbulento e das perspectivas de recessão nos Estados Unidos ainda não descartadas.
A notícia bombástica abalou todo mercado. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) disparou e recuperou rapidamente os 65 mil pontos, chegando a operar em mais de 66 mil pontos no melhor dia da era Lula. O dólar e os juros despencaram. A moeda americana fechou a R$ 1,663. O risco Brasil ¿ índice que pontua a redução de riscos de investimentos no país ¿ também caiu para 217 pontos.
Especialistas consideram que o efeito do grau de investimento, a médio e longo prazos, será a redução do custo de capital. O país vai conseguir captar recursos a custos mais baixos.
Além disso, aumentará a presença de investidores estrangeiros que antes não investiam aqui. Muitos fundos de pensão internacionais, por exemplo, só aplicam recursos em países que dispõem da classificação.
Selo de qualidade
O ex-presidente do Banco Central (BC) Carlos Geraldo Langoni acredita que trata-se de um coroamento da política macroeconômica consistente conduzida pelo Brasil.
¿ É selo de qualidade. Foi o teste que faltava para o Brasil receber o grau de investimento e chega com um sabor a mais, diante da enorme crise mundial que vivemos ¿ assinala o economista.
Langoni lembra que o Brasil era o único país dos Brics que ainda não havia conquistado o título. Além disso, os indicadores macroeconômicos brasileiros estavam muito próximos dos de países como Peru, México e Chile, que já haviam atingido o grau de investimento.
O economista e ex-presidente do BNDES Carlos Lessa avalia que o benefício imediato é a rolagem da dívida das empresas brasileiras endividadas no exterior.
¿ Elas conseguirão arrolar as dívidas a taxas bem menores ¿ diz o economista, ao citar que os bancos e também empresas como Petrobras e Vale sairão beneficiadas.
Mas a médio e longo prazos, Lessa faz uma ressalva em relação à balança de pagamentos:
¿ Se a economia brasileira conseguir segurar a balança de pagamentos, a conta de juros diminuirá. Conservando a classificação, o país certamente poderá conviver com juros bem mais baixos.
O ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso avalia que o Brasil entra para o clube de países com reconhecimento internacional e isto vai permitir mais investimento direto e ampliação da pauta de exportações brasileira, hoje concentrada em commodities.
¿ As agências de rating reconheceram que o Brasil não só tem boas políticas macroeconômicas, como cresce bastante ¿ pondera.
No entanto, a grande dúvida, alerta Velloso, é a moeda americana. O dólar tende a despencar mais com a provável entrada vultosa da moeda americana no país. A compensação, o economista sugere, deve acontecer por meio do aumento dos investimentos diretos no Brasil.
Já Vladimir Caramaschi, economista-chefe do Banco Fator, não enxerga na queda do dólar um grave problema. Caramaschi acredita que o BC vai manter a atual política monetária de arrocho para reduzir o descompasso entre a oferta e a demanda, mas garante que Meirelles sai fortalecido do episódio e "ganha certa cobertura política".
¿ A S&P destacou a política do BC como consistente, que tem liberdade política para operar. O Meirelles deve capitalizar ¿ sugere.
O ex-ministro do Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio Exterior Luiz Fernando Furlan comemora a classificação, mas lembra que o governo deve buscar reduzir os custos da máquina pública, da burocracia, investir na reforma tributária, e também acelerar a melhoria de infra-estrutura.