Título: Refém italiana faz apelo por sua vida
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Fonte: Jornal do Brasil, 17/02/2005, Internacional, p. A8
A jornalista italiana Giuliana Sgrena, seqüestrada pela guerrilha iraquiana em Bagdá, reapareceu ontem em um vídeo exibido pelas TVs árabes. Nas imagens, ela implora para que as tropas estrangeiras deixem o país. Apesar da repercussão da gravação, o governo afirmou que não vai repatriar os soldados. O vice-primeiro-ministro italiano e ministro de Exteriores, Gianfranco Fini, pediu ''unidade'' aos italianos.
Depois de 13 dias sumida, Sgrena apareceu filmada por uma organização radical islâmica. Vestida com um casaco verde, a jornalista do Il Manifesto pede, entre soluços, uma pressão contínua sobre Roma para conseguir esse objetivo.
Sgrena, que aparentava cansaço e ansiedade, estava sozinha. Atrás dela havia apenas um fundo branco, onde era possível ler, no canto superior esquerdo, a inscrição Mujahedins sem fronteiras . O texto, que foi adicionado digitalmente à gravação, estava em árabe.
- Peço ao governo italiano, ao povo que luta contra a ocupação, ao meu marido, por favor, me ajudem - disse ela, em francês. - Vocês devem fazer tudo o que podem para terminar com a ocupação.
Sgrena também pede que ninguém vá ao Iraque, ''nem jornalistas''. Ela é a 19º cidadã italiana a ser seqüestrada no país árabe nos últimos meses.
- Aqui, todos os estrangeiros, não só os italianos, são considerados inimigos. Ninguém deve vir para cá - afirmou, antes de citar o nome de um colega, Pier Scolari, a quem pediu empenho.
- Pier, me ajude, mostre a todos as fotos que tiramos do povo iraquiano, das crianças mortas por bombas de fragmentação, das mulheres. Conto com você, todas as minhas esperanças estão com você - implorou.
Depois da exibição, o pai da jornalista, Franco Sgrena, afirmou à rede de TV Sky que sentiu alívio ao vê-la viva, mas que não acreditava que o governo italiano iria retirar as tropas do país para salvá-la.
- Acho que isso vai acabar muito mal - emendou, sombriamente, em alusão ao destino de outros reféns em poder dos rebeldes.
Pressionado, Gianfranco Fini disse que o Executivo ''continuará fazendo tudo o que estiver em seu poder para obter a libertação da refém sem mudar a estratégia política, diplomática e de serviços secretos seguida até agora''. Depois de expressar sua satisfação pela prova de que a repórter está viva, Fini mostrou preocupação pelo desenvolvimento do caso. O primeiro-ministro Silvio Berlusconi se disse ''otimista'' com o desenrolar das negociações.
Dias atrás, a imprensa italiana afirmou que os serviços secretos conheciam a região na qual a repórter - uma feroz adversária da ocupação - foi seqüestrada e afirmavam que o governo crê que os seqüestradores são bandidos comuns.
O pedido da refém também gerou debates no Parlamento italiano, que passou a tarde discutindo a prorrogação da missão militar no Iraque, cujo contingente tem 3 mil homens, até junho. O plano foi aprovado pela centro-direita, que é majoritária.