O Globo, n. 32.304, 16/01/2022. Mundo, p. 18

Presidente também é aconselhado a se aproximar dos chineses
Eliane Oliveira e Jussara Soares


Em uma nova estratégia de política externa, o presidente Jair Bolsonaro foi aconselhado por auxiliares a se aproximar não apenas dos russos, mas também dos chineses para sair do isolamento. Bolsonaro já visitou a China, em 2019, mas colecionou crises diplomáticas com Pequim nos três primeiros anos de governo.

A avaliação é que, neste momento, buscar a proximidade com Rússia e China — que se uniram em oposição ao Estados Unidos —pode surpreender o próprio PT, que sempre criticou o governo pelas tensas relações com Pequim e por ter buscado uma aliança com o então presidente americano Donald Trump. As relações com os EUA, porém, esfriaram após a vitória do democrata Joe Biden, que assumiu a Casa Branca em janeiro do ano passado. Em dezembro, ao confirmar a viagem à Rússia, Bolsonaro citou o convite de Vladimir Putin como uma “janela de oportunidade”. Na ocasião, o presidente brasileiro mencionou a China.

— Vamos aprofundar esse relacionamento com a Rússia, assim como temos com a China. Vamos nos preparar para fazer dessa visita uma oportunidade de alavancarmos nossa economia —disse.

Apesar da declaração simpática sobre a potência asiática, o governo brasileiro deu início a uma série de arranhões nas relações com a China antes mesmo de Bolsonaro tomar posse. O presidente eleito afirmou que os chineses deveriam comprar do Brasil, e não comprar o Brasil.

Os ataques aumentaram a partir de março de 2020. Em uma rede social, o filho do presidente da República e então presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), pôs em dúvida o papel da China em relação a dois pontos extremamente delicados para Pequim: a pandemia do coronavírus e a tecnologia 5G de telefonia celular. E o então ministro da Educação Abraham Weintraub fez uma piada com o sotaque chinês imitando o personagem Cebolinha, da Turma da Mônica.

Em maio de 2021, Bolsonaro insinuou que o novo coronavírus poderia ter sido criado em laboratório, como parte de uma “guerra química”. Na época, o novo chanceler Carlos França, que recém-assumira o cargo no lugar de Ernesto Araújo, disse que está entre as prioridades do governo.