Título: Líder se rebela contra o governo
Autor: Carneiro, Luiz Orlando; Correia, Karla
Fonte: Jornal do Brasil, 11/05/2008, País, p. A8
Senador por Roraima, Romero Jucá trabalha contra a demarcação contínua da Reserva Raposa/Serra do Sol. E teme que situação no Estado saia do controle.
Brasília
A demarcação da Reserva/Raposa Serra do Sol deixou em campos opostos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu fiel escudeiro no Congresso, o senador Romero Jucá que, neste caso, virou um líder contra o governo. Ele bombardeia a reserva em área contínua e admite que tem usado o seu prestígio e condição política para influir, na medida do possível, para que o Supremo Tribunal Federal (STF) derrube o decreto de Lula e evite que os não-índios sejam obrigados a sair dos campos de arroz e vilas que ocupam dentro da área de 1,7 milhão de hectares. A proposta de Jucá tem tudo o que o governo não quer: a exclusão dos municípios de Normandia, Uiramutã, o Vale do Arroz ¿ que ocupa 6,48% da reserva ¿, a sede da Vila Surumu, principal foco dos conflitos, a área que pode servir para a construção da Hidrelétrica de Cotingo e a Lagoa de Caracaranã.
O senhor enfrenta, aparentemente, uma situação muito difícil. É líder do governo, mas como senador por Roraima tem uma posição contrária à do governo com relação à demarcação contínua da Reserva Raposa/Serra do Sol. Como o senhor maneja isso?
Independente de ser líder do governo, o meu mandato é de senador por Roraima. Assim, a minha obrigação primeira é com a condição do Estado. A minha posição é anterior ao governo Lula. Ela é mesmo anterior à liderança que eu tive no governo Fernando Henrique. A demarcação efetiva ocorreu em 1998, no governo Fernando Henrique, quando eu ainda não era líder do governo. Agora, eu exerço a liderança do governo ¿ exerci no governo Fernando Henrique e exerço no governo Lula ¿ como um instrumento da minha ação política para ajudar o país, mas também como um instrumento muito positivo para ajudar o Estado de Roraima. Porque na condição de líder eu me credencio para resolver questões fundamentais do Estado. E tem sido assim.
Qual é a posição do senhor nessa disputa?
Eu defendo uma solução intermediária. Em 98, nós tivemos duas visões muito polarizadas. De um lado estava um segmento indígena, que é o CIR, junto com a Igreja Católica e algumas ONGs querendo a demarcação contínua e a retirada de todas as pessoas não-índias dentro da área demarcada. Do outro lado, do lado do governo do Estado, uma parte da bancada federal, mais o governador, mais alguns segmentos indígenas que são mais vinculados ao governo do Estado, defendiam uma demarcação em ilhas. Onde tivesse aldeia, ali se faria uma reserva indígena e você teria uma malha de vários pontos de áreas indígenas que não seriam ligadas entre si.
E, naquela ocasião, os três senadores - e portanto os representantes do Estado na Federação - também tinham essa posição?
Não, os dois senadores tinham essa posição e eu tinha uma posição intermediária. Eu queria defender as duas questões que eram mais relevantes dos dois lados: a demarcação contínua, mas com a exclusão de quatro áreas que são estratégicas para o Estado e onde não há índios. Essas áreas são o Vale do Arroz, que ocupa 6,48% da reserva, o distrito de Surumu, que é uma vila de mais de 100 anos e seria o ponto de apoio de serviços públicos para a própria comunidade indígena, com comércio e tudo mais, e que representa apenas 1,15% da reserva, a área da futura barragem do Cotingo, que é o único local que nós temos para fazer um conjunto de hidrelétricas de grande porte, e onde também não há índios, mais a área da lagoa do Caracaranã, que é um hotel turístico. É uma lagoa com quiosques, com área de acampamento e onde também não tem índio morando.