Correio Braziliense, n. 22598, 31/01/2025. Política, p. 2

Lula vai para a linha de frente e manda recados
Victor Correia


Com a popularidade em constante queda, a inflação alta e o recuo sobre a fiscalização do Pix, que impactou fortemente a imagem do governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a linha de frente para rebater críticas e esclarecer pontos que provocaram crises, de olho nas eleições de 2026. Sob orientação do novo ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, o chefe do Executivo deu uma longa entrevista coletiva, ontem, na qual abordou uma série de assuntos, que foram da economia à política externa.

Lula reconheceu que o povo tem razão em estar insatisfeito com o governo, que “não está entregando aquilo que prometeu”. Disse, no entanto, não estar preocupado com resultado de pesquisas. “Eu dizia para o Pimenta (Paulo Pimenta, ex-chefe da Secom): não se preocupe com pesquisa, porque o povo tem razão. A gente não está entregando aquilo que a gente prometeu. Então, como o povo vai falar bem do governo se a gente não está entregando?” Segundo o chefe do Executivo, no entanto, “é muito cedo para fazer pesquisa sobre 2026 e para avaliar o governo”, pois a gestão tem apenas dois anos. “Cada coisa que eu falar para vocês, quero que anotem, porque cada coisa que eu falar, nós vamos entregar.” Um dos principais desafios para o governo é a alta dos alimentos, cujos preços subiram mais de 8% no ano passado, motivados principalmente por eventos climáticos extremos. Lula convocou reuniões com seus ministros para tratar do tema e anunciou a redução da alíquota de importação para alimentos que estiverem mais baratos no mercado externo. Questionado sobre as ações que estão no horizonte do governo, ele destacou que quer incentivar a produção de alimentos com financiamentos e modernização, e convocar os produtores para entender os motivos da alta, citando como exemplo a soja e a carne.

“Eu não tomarei nenhuma medida daquelas que são bravata. Eu não vou estabelecer nada que possa significar o surgimento de um mercado paralelo. O que nós precisamos trabalhar é aumentar a produção”, destacou.

Combustível

Já sobre o possível aumento do diesel pela Petrobras — que vem sendo especulado devido à defasagem de 22% do preço interno em relação ao mercado externo —, Lula negou saber sobre o reajuste. O rumor ganhou força após reunião entre o petista e a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, na segunda-feira.

“Eu não autorizei aumento do diesel. Desde o meu primeiro mandato, eu aprendi que quem autoriza aumento no petróleo e nos produtos do petróleo é a Petrobras, e não o presidente da República. Se ela tiver que fazer um reajuste, mesmo não levando em conta o aumento da inflação em 2023 e 2025, ainda assim o preço será menor do que em dezembro de 2022. Mas eu ainda não fui avisado se vai aumentar ou não”, declarou.

Ele afirmou ainda que, caso haja movimentação de caminhoneiros insatisfeitos com o aumento dos combustíveis, vai chamar a categoria para dialogar. Além da possibilidade de reajuste pela Petrobras, o preço do diesel e da gasolina vai subir neste sábado por conta da elevação do ICMS.

Galípolo

O chefe do Executivo defendeu o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo — indicado por ele —, apesar de a autoridade monetária ter aumentado a taxa de juros, para 13,25%. A elevação da Selic foi reiteradamente criticada por Lula quando o BC está sob a gestão de Roberto Campos Neto.

“O presidente do Banco Central não pode dar um cavalo de pau num mar revolto, de uma hora para outra. Já estava praticamente demarcada a necessidade da subida de juros pelo outro presidente (Campos Neto), e o Galípolo fez aquilo que entendeu que deveria fazer”, argumentou. “Eu tenho certeza de que ele vai criar as condições para entregar ao povo brasileiro uma taxa de juros menor, no tempo em que a política permitir que ele faça.”

Medidas fiscais

Lula também foi questionado sobre as contas do governo e a necessidade de novas medidas de ajuste fiscal, além do pacote apresentado no fim do ano passado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O Planalto é cobrado pelo mercado financeiro, que considera as iniciativas insuficientes para garantir o equilíbrio fiscal. “Se se apresentar a necessidade de tomar mais ações ao longo do ano, a gente vai sentar e discutir. Mas, se depender de mim, não tem outra medida fiscal.”

Frase

“A gente não está entregando aquilo que a gente prometeu. Então, como o povo vai falar bem do governo?”

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República