Título: Federais conseguem desbloquear a rodovia Transarrozeira
Autor: Carneiro, Luiz Orlando
Fonte: Jornal do Brasil, 13/05/2008, País, p. A5
Depois de duas longas reuniões com lideranças das Comunidades Jawari e São Francisco, agentes da Polícia Federal (PF) e da Fundação Nacional do Índio (Funai) deixaram a Reserva Raposa/Serra do Sol, em Roraima, com a promessa dos índios de retirarem bloqueios montados na RR-319, conhecida como Transarrozeira.
O acordo atende a um pedido do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Britto, relator das ações que contestam a demarcação da área.
¿ O ministro pediu ao meu diretor-geral que viéssemos providenciar o desbloqueio da estrada até que o STF possa decidir sobre a questão. Expliquei a eles (índios) que, até que se decida, o direito constitucional de ir e vir tem que ser respeitado. O trânsito será restabelecido ¿ afirmou o superintendente da PF em Roraima, José Maria Fonseca.
Medo de agressão
O delegado foi de helicóptero à reserva, conduziu pessoalmente as negociações e informou aos índios que poderia haver uma decisão judicial determinando a liberação da estrada com uso de força.
O bloqueio teve início no último dia 5 e, durante a semana, a PF chegou fazer um primeiro acordo, pelo qual a estrada ficou liberada por apenas 24 horas.
O motivo alegado pelos índios para a obstrução, conforme o delegado, era o temor de que arrozeiros estivessem levando para a reserva armas e pessoas para agredi-los.
¿ Dissemos aos índios que temos equipes avançadas para fazer esse monitoramento e pedimos que nos avisem em caso de qualquer suspeita ¿ disse Fonseca.
A Funai ficou encarregada de providenciar equipamentos de comunicação para que os índios informem as autoridades sobre problemas que possam ocorrer na reserva. Os tuxauas das duas comunidades visitadas pela PF não permitiram que a equipe da Agência Brasil acompanhasse de perto as reuniões. Mas, na Comunidade São Francisco, foi possível ouvir, mesmo à distância, trechos da negociação.
¿ Fizemos o bloqueio para chamar atenção e conversar olho no olho. Temos preocupação de não saber a decisão do STF ¿ disse um dos líderes, que em seguida fez acusações contra os arrozeiros:
¿ É um povo que não tem respeito com a natureza e com os nossos próprios animais. Sabemos que o bloqueio é contra a lei, mas precisamos fazer.
Imagem prejudicada
O superintendente argumentou com os índios que a tensão provocada pelo bloqueio seria prejudicial à própria imagem deles e ressaltou que os arrozeiros estariam dispostos a deixar a reserva pacificamente se o STF assim decidir.
¿ Mas eles [arrozeiros] devem ter condições para retirar as coisas deles ¿ ressalvou.
Fonseca também reiterou em diversos momentos que a função da PF na região é cumprir a lei e zelar pela manutenção da paz.
¿ Nós não estamos favorecendo lado nenhum e vamos fazer cumprir a decisão judicial ¿ afirmou ao final da reunião.
O coordenador do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Jaci José de Souza, explicou o porquê de as comunidades terem aceitado acabar com o bloqueio e esperar a decisão do STF:
¿ A terra já está homologada, registrada em área contínua. A comunidade grita para que não afrouxe e esperamos uma decisão do Supremo nesse sentido. (ABr)