O Estado de S. Paulo, n. 47951, 29/01/2025. Internacional, p. A12

Embaixada do Brasil é atacada na República Democrática do Congo

 

 

A Embaixada do Brasil em Kinshasa está entre as representações diplomáticas atacadas ontem na escalada da violência que atinge a República Democrática do Congo (RDC). O Itamaraty afirmou que abandeira brasileira foi retirada elevada pela multidão. Em comunicado, o Brasil expressou preocupação e destacou os princípios do direito internacional que garantem a proteção do prédio.

O encarregado de negócios e os funcionários da embaixada não foram atingidos. O governo brasileiro também condenou os ataques à missão da ONU para Estabilização da República Democrática do Congo (Monusco) e à missão da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral.

As forças da ONU sofreram 13 baixas provocadas pelos rebeldes do M-23, que tomaram a cidade de Goma. O Brasil tem 22 militares na Monusco, que até o ano passado era chefiada pelo general brasileiro Otávio Rodrigues de Miranda Filho. “Ataques contra a Monusco constituem grave violação do direito internacional”, afirma a nota do Itamaraty.

OFENSIVA. A violência é reflexo da ofensiva do M23, grupo armado financiado pelo presidente de Ruanda, Paul Kagame, que tomou o aeroporto de Goma, no leste da RDC, na segunda-feira, e assumiu ontem o governo da província. Em resposta, manifestantes furiosos atacaram a embaixada ruandesa na capital, que autoridades congolesas acusam de “declarar guerra”. As missões diplomáticas de França, Bélgica e Estados Unidos também foram atacadas.

A ofensiva em Goma representa uma dura derrota para as forças congolesas. Rivalidades regionais, disputas étnicas e conflitos são alimentados desde o genocídio de Ruanda. A crise escalou no domingo, quando o M23 entrou em Goma, cidade estratégica e rica em minerais. A invasão se seguiu ao fracasso das negociações entre RDC e Ruanda, mediadas pela Angola.

As batalhas espalharam corpos pelas ruas de Goma, onde vivem 2 milhões de habitantes, muitos deslocados pelo conflito. Mais de 100 pessoas morreram e 1.000 ficaram feridas em três dias. Pela cidade,

era possível ontem ver dezenas de combatentes do M23. Os moradores permaneceram dentro de casa, sem acesso a água ou energia elétrica.

Nos últimos anos, o M23, grupo predominantemente tutsi, conquistou uma grande área no leste da RDC, alegando que luta para defender sua etnia. Os combates entre rebeldes e Forças Armadas congolesas escalaram a violência que tem suas raízes no genocídio de 1994, quando a perseguição de extremistas hutus contra moderados e tutsis deixou 800 mil mortos e provocou uma onda de refugiados para RDC.

No país, que na época se chamava Zaire, esses grupos étnicos se armaram, temendo que a disputa que enfrentaram em Ruanda atravessasse a fronteira. Quando os tutsis chegaram ao poder em Ruanda, apoiaram no Zaire a oposição, que derrubou o regime e fundou a RDC, marcada desde então pela instabilidade.

Desde então, os hutus encontraram refúgio no leste da RDC, e Ruanda os vê como uma ameaça permanente. No conflito atual, os dois lados trocam acusações de apoio a grupos armados.

ACUSAÇÕES. O governo da RDC acusa Ruanda de usar o M23 para roubar recursos naturais, o que é parcialmente confirmado por especialistas da ONU. Os ruandeses, por sua vez, alegam que a RDC apoia um grupo armado hutu, que seria responsável pelo genocídio dos tutsis, 30 anos atrás. •