Título: Minc é o povo da floresta com maresia
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Fonte: Jornal do Brasil, 16/05/2008, País, p. A2

A escolha do ambientalista carioca Carlos Minc para substituto de Marina Silva no comando do Ministério do Meio Ambiente foi recebida com preconceito. Em Brasília, já tem político chamando o futuro ministro de "ecologista de Ipanema". Criou-se uma certa oposição entre a ação política de Minc e a de Marina, com a falsa impressão de que os adversários de um serão os aliados de outro.

Mas quem entende dos meandros do governo e de ecologia sabe que a coisa não é bem assim. E ninguém conhece tanto o governo e os ambientalistas quanto o deputado e ex-ministro Sarney Filho (PV-MA). Zequinha Sarney, como é chamado, vai logo avisando: "A forma como vêm comparando Minc e Marina é absolutamente descabida. Em termos de política do meio ambiente, eles são muito semelhantes. E Minc enfrentará, no governo, as mesmas forças de oposição que Marina".

Para exemplificar essas "forças de oposição", Sarney Filho citou a nota divulgada ontem pelo governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, contra o novo ministro. Maggi, que é um dos maiores produtores de soja do mundo, e Carlos Minc estão batendo de frente por conta da definição das áreas em que serão permitidas plantações de grãos. Ainda em Paris, o ministro indicado mandou um aviso aos navegantes: "Vou manter todas as políticas da ex-ministra Marina Silva, sem exceções, e aprofundá-las em algumas questões. Sou preservacionista. As áreas protegidas no Brasil têm de ser ampliadas e cuidadas. E têm de ter financiamento para a sua preservação".

Zequinha Sarney é um político com certa discrição. Parou em Blairo Maggi, ao nominar os prováveis embates do setor. Não quis tacar mais fogo na fogueira que todos já sabem acesa, em Brasília, entre Minc e, por exemplo, o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, Roberto Mangabeira Unger. O novo ministro do Meio Ambiente se diz preservacionista. Mangabeira é desenvolvimentista ¿ na economia e na vida. Em termos ecológicos, os desenvolvimentistas são aqueles que se opõem aos preservacionistas. Sem meio termo.

Não é à toa que Minc tentou emplacar o ex-governador do Acre Jorge Viana ¿ aliado da ex-ministra Marina Silva como integrante dos chamados povos da floresta ¿ para cuidar do Plano Amazônia Sustentável (PAS). Não se tratou apenas de um salamaleque para o acreano que foi cotado para o seu lugar na Esplanada dos Ministérios. Minc apontou de qual lado está. Afinal, a indicação de Mangabeira Unger para coordenar o PAS foi relacionada como o estopim da saída de Marina do governo.

Zequinha Sarney fala de outra "comparação descabida" que está sendo feita entre o futuro e a ex-ministra: a de que, como secretário de Ambiente do Rio de Janeiro, Minc teria assinado mais licenciamentos ambientais do que Marina. "Uma coisa é avaliar licenças no Rio e outra, conceder autorizações para obras gigantescas na Amazônia. Não interessa a quantidade. Interessa se as licenças estão corretas. E não conheço licenciamentos irregulares assinados pelo Minc", opina o deputado do Partido Verde.

Aliás, é na definição de cores que existe certa diferença entre Marina e Minc, conta Zequinha. Os ecologistas costumam se dividir em grupos de interesse por três tipos de agenda: a agenda verde propriamente dita é aquela focalizada nos assuntos da mata. É esta a área de interesse, por exemplo, do povo da floresta. A agenda azul é centrada na questão das águas, das bacias hidrológicas. E a agenda marrom ¿ no bom sentido, naturalmente ¿ é aquela em que a Organização das Nações Unidas classifica os assentamentos humanos, os aglomerados urbanos. Normalmente, um ecologista do Rio de Janeiro tem mais vocação para esta área, como é o caso de Minc. Mas não quer dizer que tenha diferenças ideológicas com os ecologistas da agenda verde, ou da azul. Em outras palavras, Minc tem tudo a ver com o povo da floresta. Ele é realmente amigo íntimo de Marina. A diferença é um certo jogo de cintura carioca e ¿ é claro ¿ a maresia de Ipanema.