O Globo, n 32.310, 22/01/2022. Política, p. 8
Queiroz se lança e constrange Bolsonaro e siglas aliadas
Camila Zarur
Ex-assessor de Flávio quer vaga na Câmara e 'cavar' apoio do presidente com mensagens nas redes, mas partidos evitam abrigá-lo
Até partidos leais a Bolsonaro resistem à eventual entrada do ex-assessor Flávio Bolsonaro, envolvido com rachaduras.
Pivô do caso de rachaduras no antigo Gabinete do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e símbolo das suspeitas de corrupção envolvendo a família presidencial, o policial militar aposentado Fabricio Queiroz, entusiasmado com o arrefecimento das investigações do caso, quer concorrer para deputado federal. Em entrevistas e publicações nas redes sociais, por enquanto sem nenhum sinal de cobrança explícita, ele deixa claro que pretende contar com o apoio do presidente em seu nome. Bolsonaro até agora não fez um gesto público em relação ao amigo, que sofre para encontrar um partido que abrigue alguém com sua formação.
Até nas Legendas mais fiéis a Bolsonaro há forte resistência à entrada de Queiroz. O Globo ouviu dez líderes de oito siglas. Cinco delas são da base do governo — PL, PP, Republicanos, PTB e PRTB — e três se dizem independentes: União Brasil, MDB e PSD. Nenhum deles se mostrou a favor da possibilidade de se tornar correligionário do ex-policial. A oposição é ainda maior entre os políticos desse universo que ocupam cadeiras de comando em diretórios do Rio, domicílio eleitoral de Queiroz.
FLÁVIO EVITA COMPROMISSO
A maioria falou sob a condição de anonimato, citando o medo de criar arestas com a família presidencial, de quem Queiroz é próximo desde os anos 1980. Já o presidente do PL no Rio, deputado Altineu Côrtes, confirmou que se reuniu com Flávio Bolsonaro na semana passada para discutir as candidaturas do partido ao Congresso, mas disse que nunca tratou dos planos eleitorais de Queiroz.
Em seus perfis nas redes sociais, Queiroz vem fazendo menções ao PTB. O ex-PM chegou a publicar fotos em homenagem ao ex-deputado Roberto Jefferson, cacique histórico da sigla, e que está preso desde agosto do ano passado. O GLOBO apurou com líderes da legenda, porém, que o amigo da família Bolsonaro não seria bem-vindo.
Há uma semana, em entrevista ao "Estado de S. Paulo", Queiroz disse que se receber apoio explícito de Bolsonaro, será eleito o deputado mais votado do Rio. Foi um primeiro pedido indireto de ajuda. Outra mensagem implícita veio ontem. Após a publicação de uma entrevista à revista Veja em que outro amigo de longa data da família Bolsonaro, Waldir Ferraz, admite que houve uma rachadura nos escritórios do clã — atribuindo a culpa à ex-mulher de Jair Bolsonaro, Ana Cristina Valle —, Queiroz publicou: "se for um amigo, imagine se fosse um inimigo", escreveu o ex-policial. A frase se refere à lealdade que o próprio Queiroz sempre manteve com a família Bolsonaro durante toda a investigação do crack na Alerj.
As movimentações do ex-assessor causaram um clima de constrangimento na família do presidente. Na semana passada, em entrevista à CNN, o senador Flávio Bolsonaro não descartou o apoio do pai ao ex-assessor, mas evitou transigir, saindo pela tangente:
- qualquer um pode querer ser candidato, tem uma grande rede de relacionamentos. Ele é um respeitado PM no Rio de Janeiro. No apoio, Bolsonaro tem que apoiar todos que estão nesse contexto de alianças.
Embora não admitam publicamente, membros dos partidos aliados sabem que as resistências podem ser deixadas de lado se algum representante do clã presidencial fizer um pedido direto de filiação de Queiroz. Todos os líderes ouvidos pela reportagem afirmaram, porém, que isso nunca aconteceu.
Apesar dos recados, Queiroz adota o discurso de que não busca apoio presidencial. Ele afirma que não pretende se apresentar como candidato da família Bolsonaro, mas como um nome independente na disputa.
— Não vou pedir apoio (da família). Já tenho votos de seus apoiadores — disse Queiroz ao GLOBO. - Não falo com nenhum deles desde o início da investigação.
Com os planos eleitorais traçados, Queiroz exibe em suas redes postagens dignas de pré-candidatura, com fotos ao lado de bolsonaristas, como a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) e os deputados Carlos Jordy (PSL-RJ) e Daniel Silveira (PTB-RJ). Em outro post, Queiroz sorri na frente de um jato. Um seguidor comenta: "deputado é assim mesmo. Agenda cheia".