Título: Religião e esporte são refúgios da pobreza
Autor: Bernardo Mello Franco
Fonte: Jornal do Brasil, 23/01/2005, País, p. A3

Com a escassez de emprego e renda, a população de Brasília Teimosa busca no esporte e na religião alternativas para passar o tempo. A favela, de 19 mil habitantes, não tem salas de cinema ou teatro, mas concentra cinco igrejas - uma católica e quatro evangélicas. Moradores contam que a Batista é a única a oferecer assistência social aos fiéis.

O pastor Agnaldo Rodrigues coordena o trabalho de 42 funcionários, que oferecem serviços de professor, médico e dentista a quase 500 crianças. À noite, o auditório do templo lota de adultos matriculados no curso de alfabetização. O centro é financiado por uma ONG batista sediada em Colorado, que remete dinheiro mensalmente para a filial pernambucana.

As duas escolas municipais da favela funcionam em dois turnos, o que deixa as crianças sem o que fazer no resto do dia. Para atendê-las, a prefeitura criou os Círculos Populares, que agora funcionam de forma intensiva para compensar as férias escolares. Um convênio entre a prefeitura e o Ministério do Esporte emprega estudantes de educação física e concede bolsas de R$ 300 para monitores recrutados na comunidade.

- Esporte e lazer foram a segunda prioridade da população no Orçamento Participativo de 2003, na frente de áreas como saúde e habitação - conta Nildo Caú, diretor do programa, que funciona em várias favelas do Recife.

Apesar de aprovado pela população, o projeto ainda tem deficiências. A coordenadora em Brasília Teimosa, Joana Lessa, admite que a prefeitura não cobra freqüência escolar dos participantes e que a prática esportiva não é acompanhada da distribuição das merendas, que faltam durante as férias.

Batizado com nome de historiador da Roma Antiga, o líder comunitário Suetônio Gonçalves é uma das pessoas que trabalham pela melhoria da vida na favela. Orgulha-se de ter visto Lula duas vezes - na caravana e na visita do ano passado, para ver as obras - e foi eleito pela comunidade para a comissão que cuida da legalização da posse da terra.

Por onde passa, ele troca acenos e ouve pedidos dos vizinhos. Queixa-se da falta de saneamento - apenas 20% das casas são ligadas à rede de esgoto - mas elogia a substituição das antigas palafitas por uma avenida, redes de vôlei e ciclovia.

- Parece a Praia de Boa Viagem - admira-se, comparando a favela à zona dos hotéis mais luxuosos da cidade.