Título: Miséria teimosa
Autor: Bernardo Mello Franco
Fonte: Jornal do Brasil, 23/01/2005, País, p. A3

Atrasos no auxílio-moradia e na entrega das casas vencem a esperança em favela do Recife visitada por Lula em 2003

Dois anos após a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em sua caravana com ministros pelas áreas mais pobres do país, a miséria persiste na favela Brasília Teimosa, perto do Centro Histórico do Recife. Falta água, o esgoto corre a céu aberto e muitas crianças são obrigadas a abandonar os estudos para trabalhar. As 561 famílias removidas das palafitas que desafiavam o mar ainda esperam a entrega do conjunto habitacional de Cordeiro, construído com apoio do governo federal. E o auxílio-moradia de R$ 151, pago pela prefeitura para manter os domicílios provisórios, está atrasado. ¿ A proprietária exige que a gente saia na semana que vem. Ninguém mais quer alugar casas para o povo das palafitas ¿ lamenta Eliete Araújo, de 30 anos, uma das moradoras removidas em 2003.

A ajuda é insuficiente para bancar os R$ 180 cobrados pelo pequeno apartamento, no segundo andar de um barraco de alvenaria na favela. Ex-doméstica, Eliete não tem carteira assinada há seis anos. Já vendeu cerveja na praia e agora consegue alguns trocados fazendo limpeza de pele e recolhendo latas de alumínio, que rendem no máximo R$ 15 por semana. O único emprego da família é o do marido, Marconi, que recebe um salário mínimo (R$ 260) como gari. A conta fecha com os R$ 95 pagos pelo programa federal Bolsa Família, que ela começou a receber em março do ano passado ¿ três anos após a primeira tentativa de cadastramento.

Além do drama da pobreza, que impõe a eterna dependência do Estado, os moradores de Brasília Teimosa passaram a sofrer, nos últimos anos, com o aumento da violência, que impede mulheres como Eliete de procurarem trabalho fora de casa. As disputas pela boca-de-fumo e os assaltos, que não poupam moradores da comunidade, impuseram um toque de recolher informal à noite. O carro do único posto policial da comunidade está quebrado e o assunto da semana ainda é o assalto ao caminhão que entrega ovos, na segunda-feira.

¿ Não posso deixar meus filhos em casa por nada. Há poucos dias, levaram a TV do vizinho ¿ conta Eliete, apontando da janela uma casa com muro de dois metros.

A vida é pior no andar de baixo de seu barraco, onde Adriana Verônica da Silva, de 32 anos, espera pela nova casa. Catadora de sururu ¿ um molusco vendido em mercados populares do Recife ¿ ela já tentou se inscrever em programas de assistência, mas não recebe nada além do auxílio-moradia municipal. Ainda no tempo das palafitas, sem banheiro nem água encanada, foi obrigada a deixar um dos quatro filhos para a irmã. O bebê passou meses à beira da morte, contaminado pelo esgoto que invadia as casas na maré alta. A filha mais velha, de 13 anos, já largou os estudos e cuida de crianças de classe média em troca de R$ 70 mensais ¿ menos de um terço do salário mínimo.

O comerciante Severino Batista Leitão, de 69 anos, duvida da eficácia dos programas assistenciais, que qualifica como ¿ajudas mínimas¿. Dono de uma pequena mercearia em Brasília Teimosa, ele vê o volume de vendas cair a cada equipe econômica que ascende na Brasília dos gabinetes. Sua receita mensal, que já atingiu os R$ 5 mil, hoje mal chega à metade.

¿ A comunidade está cada vez mais pobre. Sem emprego, nada vai mudar ¿ resigna-se.

Ele recebe um salário mínimo de aposentadoria e passa o dia num cubículo amontoado de mantimentos básicos. Produtos mais caros não entram na loja, sob pena de passarem da validade. A janela usada para as vendas está gradeada desde o primeiro assalto, há seis anos.

Parte dos ex-moradores das palafitas se inscreveu para trabalhar no mutirão que ergue o conjunto de Cordeiro. Apesar das reuniões semanais das famílias removidas, o novo destino ainda é desconhecido para a ex-doméstica Maria da Conceição dos Santos, que aos 40 anos recebe um salário mínimo de aposentadoria por invalidez:

¿ Só quero ir para lá quando as casas estiverem prontas.

Outra preocupação aflige Adriana Verônica, a catadora de sururu. Como o novo conjunto fica longe do mar ¿ e a cerca de 10 km de Brasília Teimosa ¿ ela teme ser obrigada a pagar condução para pegar os mariscos:

¿ Se for despejada, vou construir um novo barraco na praia, dessa vez de alvenaria.

A promessa lembra a resistência dos fundadores de Brasília Teimosa. Construída ao mesmo tempo que a capital federal, a favela foi batizada assim porque seus moradores desafiavam a polícia, que derrubava de dia os barracos construídos à noite.

De férias em Portugal, o prefeito do Recife, João Paulo, nega o atraso do auxílio-moradia. Segundo o petista, o benefício não tem data fixa e será pago até o fim do mês. Ele garante que os ex-moradores das palafitas não precisam se preocupar com ¿ameaças infundadas¿ de despejo. Conta que o Recife tinha 25 mil casas de palafita no início de sua gestão, em 2001, e admite que não conseguirá remover nem a metade até o fim do segundo mandato. Segundo ele, a prefeitura tem pouca capacidade de investimento numa metrópole onde a renda sempre foi concentrada e dois terços do 1,5 milhão de habitantes vivem abaixo da linha da pobreza.