O GLOBO, n 32.311, 23/01/2022. Política, p. 10

Pré-candidatura de Weintraub racha base bolsonarista nas redes
Lucas Mathias


Críticos à relação do presidente com o Centrão, ex-ministro quer disputar o governo de SP

O ex-ministro Abraham Weintraub, que ocupou a pasta da Educação no governo de Jair Bolsonaro, é um dos principais expoentes do racha bolsonarista que chegou às redes sociais nas últimas semanas. Segundo levantamento da Arquimedes, foram 150 mil publicações sobre ele no Twitter somente nos primeiros 20 dias de janeiro. Pré-candidato ao governo de São Paulo, ele tem disparado diversas críticas ao presidente, especialmente sobre sua relação com o Centrão. 

Ao sinalizar a intenção de concorrer em São Paulo, o ex-ministro se contrapõe ao nome preferido de Bolsonaro ao Palácio dos Bandeirantes: o do ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas. Foi com esse pano de fundo, inclusive, que Weintraub criticou, durante uma live na segunda-feira, a presença e a influência de políticos e partidos do Centrão no governo de Bolsonaro, que se filiou ao PL no ano passado. Segundo ele, os aliados conservadores do presidente foram “substituídos por essa turma”.

A temperatura foi elevada ao longo da semana. Em reação às críticas de Weintraub, o secretário de Cultura, Mario Frias, publicou prints de interações de Abraham e seu irmão, Arthur Weintraub, em conteúdos negativos sobre Bolsonaro. O post foi endossado por um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo (PSL-SP), que também foi combativo em relação ao ex-ministro da Educação.

RIXAS FREQUENTES

Ainda assim, a estratégia, até o momento, tem se mostrado favorável a Weintraub. Dentre o total de publicações identificadas no grupo de apoiadores de Bolsonaro, 37% ficaram do lado do ex-ministro enquanto 22% foram contrários a ele. Os outros 41% correspondem a perfis de oposição, que se manifestaram, em geral, de forma crítica à pré-campanha e surpresos com a divisão na base do presidente.

O racha entre os bolsonaristas, porém, não é novidade e tem registrado sucessivos capítulos nos últimos dias. Na quinta-feira, por exemplo, o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo trocou críticas com o ministro das Comunicações, Fábio Faria. A briga chegou a um processo judicial, movido por Faria, depois de o ex-chanceler afirmar que o ministro “entregou o 5G para a China”.

Já a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP), eleita na onda bolsonarista, criticou Bolsonaro depois que ele convidou a ministra Damares Alves para concorrer ao Senado por São Paulo, posto que a parlamentar pleiteia. 

Pedro Bruzzi, um dos sócios da Arquimedes, avalia que o ataque a Weintraub por bolsonaristas é mais pela infidelidade ao presidente do que pela argumentação contra o Centrão. Em 2018, quando eleito para a Presidência, Bolsonaro pregava um discurso antissistema, o que vai de encontro à sua atual política.

— Eventualmente, (bolsonaristas) até usam argumentos de que (a aliança com o Centrão) é o que tem que ser feito para evitar o PT, mas não é uma defesa ferrenha — diz Bruzzi. 

Por ora, a postura de Weintraub ainda não foi suficiente para superar a repercussão nas redes do ministro Tarcísio Freitas, seu concorrente direto ao governo paulista. A análise da Arquimedes identificou que, no mesmo período, foram feitos 185 mil posts sobre o ministro da Infraestrutura, 35 mil a mais do que o volume de Weintraub. O número inclui publicações de Bolsonaro enaltecendo suas entregas, por exemplo.