Título: Portugal aprova acordo ortográfico
Autor: Krapp, Juliana
Fonte: Jornal do Brasil, 17/05/2008, País, p. A5
No Brasil, ABL anuncia que já prepara suas publicações utilizando a nova norma do idioma.
Depois de muita polêmica, o parlamento de Portugal aprovou ontem o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, que unifica a forma como é escrito o idioma nos países lusófonos. Assim que obter a sanção do presidente Cavaco Silva, que já se mostrou favorável ao acordo, o país terá seis anos para se adaptar às novas normas.
Trata-se, na verdade, de um segundo protocolo do acordo, que modifica o original, assinado em 1990. A principal mudança deste novo texto é tornar viável a adesão de Timor Leste, que ainda não era um país independente na época.
Protesto
A polêmica em torno da reforma culminou em uma petição, entregue na quinta-feira ao Parlamento português, assinada por 33 mil pessoas. O texto de protesto contra o acordo alegava "fragilidades técnicas e políticas", e contava com a adesão de um punhado de intelectuais.
No Brasil, no entanto, a aprovação do acordo foi recebida com entusiasmo pelos membros da Academia Brasileira de Letras (ABL).
¿ Essa é uma vitória para a lusofonia e para a latinidade ¿ comemora o presidente da instituição, Cícero Sandroni. ¿ Agora a língua portuguesa poderá ser escrita de maneira uniforme em todo o mundo, o que lhe dá status de língua internacional.
De fato, um dos principais argumentos dos defensores do acordo é a importância de viabilizar a redação de documentos internacionais em língua portuguesa. As diferentes grafias prejudicam a emissão de tratados e acordos em português. Outro ponto usado em prol da mudança é a difusão da cultura: livros escolares, por exemplo, não podem ser usados, em versões idênticas, nos vários países lusófonos.
Três anos de adaptação
No Brasil, o próximo passo referente ao acordo será dado em 1º de janeiro de 2009, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinará a minuta preparada pela Comissão de Definição da Política de Ensino, Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (Colip), órgão ligado ao Ministério da Educação e Cultura (MEC). Com essa assinatura, o prazo estimado de adaptação para os brasileiros é de três anos.
A revisão, no entanto, já está valendo.
¿ O texto original do acordo previa que, quando três países confirmassem sua adesão, ele já entraria em vigor ¿ explica Sandroni. ¿ Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe já haviam ratificado o documento. Então, tecnicamente, o acordo já estava aprovado.
O aceno positivo do parlamento português acaba servindo, então, como um divisor de águas. Prova disso é que, a partir de hoje, todos os textos que a ABL enviar para publicação já estarão adaptados à nova norma.
Isso vale para a quinta edição de seu vocabulário, prevista para chegar às prateleiras até o fim do ano, já dentro das regras do acordo. Das 400 mil palavras que o compõem, entre 8% e 10% estarão adaptadas à nova forma de escrita.
Extinção do trema
Além disso, o MEC já exige que os livros didáticos que serão adquiridos para as escolas públicas a partir de 2010 estejam em conformidade com as novas normas. E as editoras têm autorização para adaptar suas publicações já a partir do ano que vem.
Especialistas têm afirmado que, para os brasileiros, a mudança não será muito intensa. Afinal, as principais alterações são a extinção do trema, a introdução das letras K, W e Y no alfabeto e a supressão de alguns acentos, como os de lêem e pêlo. Também haverá a extinção do hífen em palavras que seguem a regra de antirreligioso ou extraescolar.