O Estado de S. Paulo, n. 47972, 19/02/2025. Negócios, p. B12

Em disputa com os EUA, China avança com a aquisição de mineradoras no Brasil
Ivo Ribeiro

 

 

Operação de níquel da Anglo American em Barro Alto, no Estado de Goiás, vendida para o grupo chinês MMG Singapore Resources

Em menos de seis meses, grupos chineses adquiriram dois negócios de metais não ferrosos no Brasil, como parte de um plano para assegurar o fornecimento de minerais e metais estratégicos para a indústria de transformação da China. O desembolso foi de US$ 840 milhões (R$ 4,7 bilhões).

O país asiático é o maior consumidor mundial de matériasprimas metálicas, como minério de ferro usado na fabricação de aço e ainda metais como cobre, níquel, estanho e alumínio. O avanço de negócios bilionários chineses no Brasil acontece em meio a uma corrida mundial por metais essenciais à transição energética e à indústria de carros elétricos. Sob a nova gestão de Donald Trump, os Estados Unidos mostraram planos agressivos para garantir a posse de reservas desses tipos de materiais.

Em novembro, a estatal China Nonferrous Metal Mining (CNMC) já havia comprado da peruana Minsur a mineradora Taboca, no Amazonas, que explora estanho e nióbio, por US$ 340 milhões (R$ 1,9 bilhão). A mina, localizada a 100 km de Manaus, no município de Presidente Figueiredo, tem enormes reservas de estanho.

Ontem, novo movimento foi feito por outra companhia chinesa, a MMG Singapore Resources, subsidiária integral da MMG Limited (MMG), que por sua vez é ligada à gigante China Minmetals, organização estatal e uma das maiores mineradoras do país.

A empresa firmou com a Anglo American a aquisição de seus ativos de níquel no Brasil por valor que pode chegar a US$ 500 milhões (R$ 2,8 bilhões). O negócio envolve as duas unidades operacionais de ferro-níquel situadas em Goiás, nos municípios de Barro Alto e Niquelândia. A capacidade de produção das unidades vendidas é de 40 mil toneladas de níquel por ano.

O negócio dos ativos de níquel entre a Anglo e a MMG inclui dois projetos minerais para desenvolvimento futuro de novas minas do metal no Brasil. Um deles, Morro Sem Boné, fica em Mato Grosso; o outro, Jacaré, no Pará.

A transação envolvendo os ativos de ferro-níquel faz parte da estratégia de saída de mineração de bens considerados não mais estratégicos no portfólio da Anglo American, anunciada no ano passado. Foi lançada logo após a companhia, sediada em Londres, receber uma oferta hostil de aquisição por parte da rival anglo-australiana BHP. A transação foi rejeitada pela Anglo.

A empresa decidiu então se concentrar em três produtos: minério de ferro premium (Brasil e África do Sul), cobre (Chile e Peru) e nutrientes agrícolas (fertilizantes).

CORRIDA GLOBAL. Há uma corrida mundial pelos metais considerados críticos, como lítio, níquel, cobre, cobalto, nióbio, grafita e manganês, ligados à transição energética e à indústria de mobilidade elétrica.

Trump, que completa amanhã um mês de seu segundo mandato, anunciou a intenção de anexar o território da Groenlândia, onde se estima haver vastas reservas minerais. Ele ainda propôs ao presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, ajuda na guerra com a Rússia em troca de acesso a jazidas de bens minerais. Os movimentos dos Estados Unidos sinalizam um contraataque ao avanço chinês no mundo.

A China é o maior consumidor de minério de ferro do Brasil. O país importa cerca 1,2 bilhão de toneladas da matériaprima do aço por ano, além de deter recursos minerais de carvão, estanho, ferro e alumínio. Segundo especialistas que acompanham operações no setor mineral, a participação de um único país na produção de minérios é motivo de preocupação para outros países, como os Estados Unidos e Europa.

Há quase 20 anos, os chineses tentaram comprar o controle da CBMM, maior produtora mundial de nióbio, pertencente à família Moreira Salles. Como uma decisão estratégica, a empresa vendeu 15% do capital a um consórcio chinês e mais 15% a um grupo de companhias do Japão e da Coreia do Sul.

Assim, a CBMM atendeu aos anseios de “gregos e troianos” da Ásia para garantir suprimento do metal para sua siderurgia. O nióbio na última década, no entanto, ganhou mais relevância, além do aço, em aplicações da transição energética e da mobilidade elétrica. É visto como material crítico e também estratégico. •