Valor Econômico, 18/05/2020, Brasil, p. A3
Mais pobres podem perder 30% da renda
Ana Conceição
O impacto negativo da crise econômica gerada pela pandemia da covid-19 sobre os trabalhadores menos qualificados e com menor renda pode ser, no mínimo, o dobro daquele sobre os de maior ganho e qualificação, segundo exercício feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Num cenário em que a restrição à atividade econômica dure dez meses, o mais pobre pode perder quase 30% da renda em 12 meses.
O estudo leva em conta quatro cenários, com três deles considerando que as restrições à atividade econômica durem seis meses e, em um, dez meses. Também leva em consideração uma medida de intensidade da crise, dada pela probabilidade de saída do mercado de trabalho, a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2016, segundo ano do último período de recessão no país.
Segundo o técnico em planejamento do Ipea Ajax Moreira, autor do estudo, todos os trabalhadores perdem com a crise, mas no primeiro cenário, com uma crise mais leve e duração de seis meses, aqueles no primeiro estrato de renda perdem 9% de seus ganhos em 12 meses, enquanto na ponta mais rica a perda é de 3%. No cenário de dez meses de restrições à atividade econômica, os trabalhadores mais pobres chegam a perder 28% da renda anual, enquanto mais ricos perdem 11%. Nesse mesmo cenário de dez meses, quando a perda de renda é medida no domicílio, esses números são respectivamente de queda de 11% e de 24%. O resultado por domicílio afere o efeito sobre toda a população, que inclui inativos e crianças.
Segundo o técnico, o exercício é uma primeira avaliação, feita com os dados disponíveis, sobre o potencial impacto da quarentena sobre a renda e o emprego, levando em conta os diversos graus de vulnerabilidade do trabalhador brasileiro. Os dados de renda foram retirados da Pnad 2019 que só tinha disponível, naquele momento, a renda do trabalho, e da Pnad 2018, onde já havia informações sobre valores do Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC, voltado para idosos de baixa renda e pessoas com deficiência) e aposentadorias.
O modelo também mostra que quanto maior a instrução, maior a probabilidade de estar ocupado na crise. Assim, na simulação em que as restrições à atividade duram seis meses, a probabilidade de um trabalhador sem instrução estar ocupado é de 13% menor, em média, enquanto a de um trabalhador com mais de 15 anos de instrução é 8% menor.
No cenário em que as medidas de restrição duram dez meses, a chance de um trabalhador sem instrução estar ocupado é 23% menor, em média, e a de um trabalhador mais instruído é 16% menor. Em ambos os cenários, a faixa que sente menos o desemprego é a dos trabalhadores com 15 anos ou mais de estudo. Abaixo disso, os percentuais são bem parecidos nas várias faixas de escolaridade.
“O que os resultados mostram é que o impacto sobre os trabalhadores menos qualificados e com menor renda são em média o dobro do impacto sobre os situados nos estratos superiores. Também mostram que, para o efeito sobre a renda, a duração da crise é mais importante do que a velocidade da demissão do trabalhador”, diz Moreira.
O estudo ressalta que o impacto da pandemia, evento sem precedentes na história recente, depende essencialmente da duração das restrições à atividade e que, numa população de trabalhadores heterogênea como a brasileira, os efeitos negativos também são de intensidades diversas e, assim, pedem políticas públicas diversas. “ Essa questão é especialmente importante no Brasil, que tem um importante segmento informal que não é protegido por leis sociais, e é especialmente vulnerável ao ciclo econômico”, diz o pesquisador.