Título: Polícia vigiou a casa
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 18/02/2005, Internacional, p. A8

ASSUNÇÃO - Em vez de trazer alívio, o fim do seqüestro de Cecilia Cubas provocou uma crise nos setores de segurança do Paraguai. Nem as investigações em províncias de Norte a Sul do país, nem a prisão de meia dúzia de pessoas presumivelmente implicadas no crime permitiram encontrar a filha do ex-presidente Raúl Cubas viva. E além do envolvimento das Farc, há indícios de interceptação de Inteligência dentro da própria polícia.

O corpo foi encontrado durante uma operação da procuradoria, da polícia e de equipes de bombeiros, que trabalharam várias horas para chegar à fossa conectada a um túnel, na casa em Ñemby, vazia desde dezembro.

Até novembro, a família Cubas mantinha contato com os seqüestradores, mas a negociação foi cortada depois do pagamento do resgate. Em 14 de janeiro, após semanas de silêncio, a família deu um ultimato aos seqüestradores, com a ameaça de que as autoridades conheciam seu paradeiro ou os autores. De fato, esta semana a polícia fez várias prisões, inclusive a de Martínez, tido como o autor intelectual do seqüestro.

Um véu de suspeitas paira sobre a investigação. Para começar, o delegado Merardo Palacios, titular em Ñemby até dezembro, havia comunicado a superiores, em novembro, movimentação estranha no local. Palacios foi transferido e o procurador-geral, Oscar Latorre, não teve notícias da denúncia. Não se sabe se a informação chegou até ele ou não.

- Tinha gente que sabia e não cumpriu com o dever. Pessoas conheciam o lugar do cativeiro - disse Latorre, ao confirmar a abertura de inquérito sobre o caso.

Palacios diz que foi transferido por ter dito o que sabia sobre o seqüestro.

- Ninguém me deu importância - denunciou.

O policial Blas Lanzoni confirmou ao jornal ABC Color que por dias filmou a entrada e saída de pessoas suspeitas na casa e entregou a fita ao superior.

- Cinco dias depois, Palacios foi transferido e a investigação, arquivada - disse.

Para o ministro do Interior, Nelson Mora, quem está escondendo informações é o ex-delegado - cujo nome figura em relatório de 2004 da Anistia Internacional, sobre torturas cometidas contra presos no Paraguai. Palacios é acusado de participar de maus-tratos durante a tentativa de golpe em 2000 contra o então presidente, Luis Angel González Macchi.

- Convido Palacios a contar à opinião pública em quais circunstâncias obteve detalhes do cativeiro - provocou.

Com a crise, o chefe de polícia, Carlos Zelaya, colocou o cargo à disposição do presidente Nicanor Duarte.