Título: Tragédia em seqüestro abala o país
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Fonte: Jornal do Brasil, 18/02/2005, Internacional, p. A8
Cecilia, a filha do ex-presidente Raul Cubas raptada há seis meses, morreu no cativeiro. Crime teria ligação com as Farc
ASSUNÇÃO - Depois de meses de procura, a polícia do Paraguai encontrou, na quarta-feira, o corpo da filha do ex-presidente Raúl Cubas, Cecilia, de 32 anos, seqüestrada desde 21 de setembro de 2004. A violência do crime e os misteriosos ingredientes que o cercam causaram comoção no país. Entre outros estranhos detalhes, um dos suspeitos presos, segundo a polícia, fazia contatos freqüentes com a guerrilha de esquerda das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
A captura de seis homens há dias, entre eles um policial, levou a polícia a afirmar estar perto de achar Cecilia viva. Porém, quando chegaram à casa em Ñemby, 15 km ao Sul da capital, descobriram o corpo, em estado de decomposição, enterrado numa câmara de 2 metros de altura, 70 cm de diâmetro e 2,10 m de comprimento, no quintal. A jovem teria sido morta por asfixia, há dois meses, um depois que Cubas - que governou o Paraguai entre agosto de 1998 e março de 1999 - disse ter pago um resgate. O valor seria entre US$ 300 mil e US$ 800 mil.
Aparentemente, a quantia não satisfez os criminosos, que chamaram o valor de ''multa'' e exigiram mais US$ 5 milhões. Não houve soltura e os contatos cessaram. Para a polícia, a refém esteve escondida desde setembro na câmara - ligada por um túnel à casa.
O ministro do Interior, Nelson Mora, garantiu que os sequestradores estão ligados às Farc. O principal suspeito detido é Osmar Martínez, membro de uma dissidência do partido esquerdista Pátria Livre. Além de ter sido dono da casa, ele trocaria e-mails com frequência com o ''chanceler'' das Farc, Rodrigo Granda, preso na Venezuela em dezembro e levado para a Colômbia, o que gerou uma crise entre os dois países.
Agentes caçam mais três pessoas, que moravam no local do cativeiro. Duas aparecem num vídeo, apreendido na batida policial, no qual se ensina como fazer um seqüestro. Foram encontradas também armas, munição e coletes à prova de bala.
O procurador-geral do Estado, Oscar Latorre, não escondeu a contrariedade ao informar que Cecilia esteve todo o tempo em Ñemby, a apenas 20 km da mansão dos Cubas em San Lorenzo e bem perto de onde foi levada, após ter seu carro interceptado a 50 metros de casa.
- Até pouco tempo confiava no ser humano, mas evidentemente há animais que têm forma humana mas não o são - desabafou Latorre, antes de o corpo ser levado ao IML, onde foi identificado pela arcada dentária.
- Não descansaremos e vamos castigar severamente o bando que cometeu este ato brutal escondendo-se atrás de um movimento político - afirmou o presidente, Nicanor Duarte, que também esteve na casa.
Cubas foi a Ñemby com a mulher, Mirta Gusinky. A TV o mostrou indo embora para Assunção chorando.