Título: Libertações estão mais próximas
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Fonte: Jornal do Brasil, 27/05/2008, Internacional, p. A21
Políticos alegam que mudanças na cúpula das Farc levarão a início de negociação com o governo.
"O fim das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) está próximo". A declaração feita ontem pelo ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, sustenta a avaliação de políticos e analistas sobre o impasse das Farc: as mudanças ocorridas na cúpula da guerrilha e o desmantelamento de sua coesão devem levar o grupo rebelde a iniciar negociações de paz com o governo e a libertar reféns.
Marulanda, o número um das Farc, de 78 anos, morreu em 26 de março depois de sofrer um enfarte. Principal fundador da guerrilha nos anos 60, Marulanda nasceu na zona rural, não estudou e passou boa parte de sua vida na clandestinidade. Tinha a fama de ser um insurgente intransigente, muito diferente de seu sucessor Alfonso Cano, um antropólogo considerado um dos principais ideólogos da guerrilha.
Pela primeira vez em sua história, as Farc serão comandadas por um homem que nasceu na cidade, estudou em uma universidade e viajou para outros países.
Novo perfil
Cano, cujo nome verdadeiro é Guillermo León Sáenz foi militante da Juventude Comunista nos anos 60 e 70, e é considerado mais da ala política do que da militar.
Por duas vezes, Cano liderou delegações das Farc para negociar com o governo colombiano, durante o governo do presidente César Gaviria. A primeira ocasião foi em Caracas, em 1991, e, um ano depois, em Tlaxcala, México.
¿ Isso deve ser um sinal de que a ala política das Farc conseguirá realmente compreender, de uma vez por todas, que será por meio de uma solução política negociada que chegaremos à paz ¿ declarou ontem o ex-presidente colombiano Andrés Pastrana, que tentou selar a paz com o grupo rebelde em um processo transcorrido entre 1999 e 2002.
Segundo o governo colombiano, Marulanda, o mítico guerrilheiro mais velho do mundo, tinha uma visão arcaica do país e do mundo, defendendo doutrinas responsáveis por impedir a realização da paz por meio de negociações porque ele interpretava isso como uma derrota militar de seus princípios.
¿ A morte de Marulanda representa uma oportunidade para que as Farc se sentem à mesa de negociações com o Estado colombiano ¿ ratificou a senadora Marta Lucia Ramírez.
De imediato, Cano terá de tratar do tema do acordo humanitário que tenta libertar 40 reféns de peso, entre os quais a franco-colombiana ex-candidata à Presidência da Colômbia Ingrid Betancourt e três americanos, disseram analistas.
¿ É possível que, com a chegada de Cano, haja um enfoque maior na questão política e que se busque uma saída negociada, mas isso não significa que os guerrilheiros deixarão de fazer várias exigências ¿ comentou o analista Pedro Medellín.
O ministro da Defesa foi enfático ao dizer que as "Farc estão em seu pior momento":
¿ Por isso, pedimos que se desmobilizem, sua luta não tem mais sentido. Abram os olhos e aproveitem essa oportunidade porque vamos continuar com as operações com igual ou mais intensidade.
O ministro garantiu que o Exército vai intensificar as operações de combate à guerrilha na selva, que têm como objetivo não apenas a localização de Cano, mas de todos os membros do secretariado da guerrilha, considerados pelo governo colombiano "alvos de alto valor".
Em resposta às declarações, a guerrilha afirmou que não irá retroceder, em um comunicado divulgado ontem:
"Juramos, diante da tumba de nosso comandante, que a luta continuará. Comandante Manuel Marulanda, morrer pelo povo é viver para sempre".