O GLOBO, n 32.316, 28/01/2022. Política, p. 8

Moro busca tom informal, com acenos a conservadores

Thiago Prado


Ex—juiz tenta suavizar imagem ao mesmo tempo em que mira eleitores de Bolsonaro

As cinco horas de entrevista de Sergio Moro (Podemos) ao podcast “Flow” revelam um ex-juiz que tenta se equilibrar entre apresentar um lado menos formal para o público ao mesmo tempo em que busca capturar um perfil de eleitor mais identificado atualmente com Jair Bolsonaro. Foi essa a mensagem a ser passada em meio a perguntas desconfortáveis sobre sua contratação pelo escritório de consultoria Alvarez & Marsal, as mensagens trocadas com procuradores durante a Operação Lava-Jato e o pagamento de auxílio-moradia enquanto magistrado.

As credenciais conservadoras apareceram em várias respostas aos apresentadores Igor e Monark na noite da última segunda-feira. O pré-candidato à Presidência bateu na tecla da importância da defesa do proprietário rural e mostrou-se favorável a uma maior flexibilização na legislação da posse de armas; quando o assunto foi o movimento “Escola sem Partido”, disse que sala de aula “não é lugar para ter doutrinação política”. Pregou ainda contra a legalização das drogas e do aborto.

O discurso em sintonia com o que pensa o bolsonarismo também apareceu ao abordar o inquérito das fake news no Supremo Tribunal Federal (STF), responsável por prender apoiadores do presidente nos últimos dois anos por pregarem contra a democracia. Embora tenha ressaltado que respeita a Corte, Moro disse que a investigação já “foi longe demais”. Para defender o ponto de vista, indicou o livro “Liberdade para as ideias que odiamos”, do jornalista americano Anthony Lewis.

Na economia, ao que tudo indica, a estratégia é ser cada vez mais liberal nos posicionamentos. Além de sinalizar privatização da Petrobras, Moro prometeu extinguir a EBC, exatamente o que Bolsonaro dizia em 2018 quando seguia a cartilha do ministro da Economia, Paulo Guedes. “Às vezes tem informação útil, mas na maioria das vezes é propaganda oficial de político”, criticou o ex-juiz.

No “Flow”, o Moro que tenta ser mais leve deu as caras para falar de games e esportes. Lembrou da época em que jogava “Street Fighter” no fliperama, de como lia os gibis da Marvel e de sua preferência pelos X-Men no universo dos super-heróis. Também admitiu pela primeira vez, que, mesmo nascido no Paraná, estado de Athletico e Coritiba, torce para o São Paulo, embora tenha confessado ser péssimo jogador de futebol (“já fui de tênis”, buscou compensar).

O trabalho de “humanização” da imagem do ex-juiz começou no fim do ano passado. Na sua biografia (“Sergio Moro —Contra o Sistema de Corrupção”), quis afastar a pecha de magistrado privilegiado ao destacar as idas de bicicleta para trabalhar na 13ª Vara de Curitiba e os almoços em marmitas no seu gabinete. Também desviou do rótulo intelectual. Ressaltou seu gosto pela Coleção Vagalume, série de livros infanto-juvenis de títulos Ilha Perdida ”,“O Mistério do Cinco Estrelas” e “Escaravelho do Diabo”.

MBL e Vem pra Rua já começaram a potencializar a estratégia do Moro conservador e descolado. Assim que fechar com um marqueteiro, o que espera fazer nas próximas semanas, esses movimentos ganharão ainda mais tração. Ex-ministro criticou inquérito das fake news e defendeu mais acesso à posse de armas.