Correio Braziliense, n. 22632, 08/03/2025. Economia, p. 7
País cresceu 3,4% em 2024
Rosana Hessel
A atividade econômica brasileira desacelerou no último trimestre de 2024, o que resultou em crescimento de 0,2% — menos da metade do esperado pelo mercado. Com esse resultado, o Produto Interno Bruto (PIB) do país encerrou o ano com crescimento de 3,4% na comparação com 2023. Em valores nominais, o PIB, que é a soma de tudo o que o país produz em bens e serviços, chegou a R$ 11,7 trilhões. O dado também ficou levemente abaixo das estimativas do mercado e do governo, que chegou a cogitar alta de até 3,7%, mas indica o melhor desempenho das contas nacionais desde 2021, conforme os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De acordo com os dados do IBGE, os principais motores para o desempenho do PIB no ano passado vieram, do lado da oferta, dos serviços e da indústria, que cresceram 3,7% e 3,3%, respectivamente, em relação a 2023. Enquanto isso, a agropecuária, que deu uma forte contribuição no PIB de 2023, encolheu -3,2%. A arrecadação de impostos cresceu 5,5% e ajudou a ampliar o valor adicionado de riquezas do país ampliando a participação no PIB de 14,5%, em 2023, para 16%, em 2024.
Consumo
Pela ótica da demanda, o consumo das famílias e os investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) foram os principais destaques, com expansão de 4,8% e de 7,3%, respectivamente, na mesma base de comparação. Analistas lembram que a taxa de investimento, de 17% do PIB, cresceu em relação aos 16,4% do PIB registrados em 2023. Contudo, esse patamar ainda está abaixo dos índices acima de 20% do PIB computados entre 2009 e 2013. De acordo com analistas, o aumento da renda das famílias, devido à melhora no mercado de trabalho, e estímulos fiscais, como o Bolsa Família parrudo e o aumento real no salário mínimo, são algumas das razões para que o consumo das famílias apresentasse o maior crescimento desde 2011. Mas, a escalada dos juros e a persistência da inflação fizeram esse indicador recuar 1% no 4º trimestre, acentuando o processo de desaceleração que deverá se estender para 2025, ano em que o PIB poderá crescer menos de 2%, conforme algumas estimativas.
“A economia está desacelerando e não podemos descartar queda de PIB no segundo semestre deste ano”, alertou a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria. Ela esperava alta de 0,4% do PIB de outubro a dezembro. “Esse PIB mais fraco mostra que a desaceleração é maior do que o esperado por conta da queda da demanda. Isso indica que o consumo das famílias e os investimentos tendem a ser mais fracos ao longo deste ano, como reflexo da política monetária e do mercado mais tenso devido à percepção de risco maior no cenário externo”, explicou. “Esse cenário apenas está chancelando o movimento de aumento da Selic que vem sendo conduzido pelo Banco Central”, acrescentou. O BC vem elevando a taxa básica de juros, a Selic, que hoje está em 13,25% ao ano e pode encerrar 2025 em 15%, segundo estimativas do mercado.
A economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), lembrou que, apesar do crescimento considerado forte do PIB em 2024, acima do crescimento potencial, isso vem contribuindo para a desancoragem das expectativas de inflação, que não param de ser revisadas para cima e seguem acima do teto da meta, de 4,5%. Matos também reconheceu que o aumento de 4,8% do consumo das famílias em 2024 superou as estimativas e agora, haverá um cabo de guerra entre a política monetária e a política fiscal, se o governo resolver manter estímulos para evitar a desaceleração que está em curso. “O custo para conseguir reduzir a inflação tende a ser maior e vai ser um problema ao longo deste ano e do próximo, que tem as eleições presidenciais”, alertou. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, é categórico ao avaliar o desempenho do PIB de 2024 e avalia que a desaceleração de 2025 está convergindo para uma alta do PIB entre 1,5% e 2%.