Título: Desafio do governo: concentrar-se na educação
Autor: Vieira, Pedro
Fonte: Jornal do Brasil, 21/05/2008, País, p. A3
A existência de 1,6 milhão de analfabetos, a persistência de elevada distorção entre idades e séries, a baixa freqüência no ensino superior, e as restritas oportunidades de acesso à educação profissional são alguns dos aspectos mais alarmantes divulgados, ontem, pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea).
A pesquisa, que reuniu dados coletados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) até 2005, não traduziu a melhora implementada pelo governo federal nos últimos três anos, segundo o sociólogo Roberto Gonzalez, pesquisador do Ipea e um dos profissionais envolvidos neste trabalho.
¿ A melhora nas taxas de emprego atuais não estão contabilizadas na pesquisa, que também não incluiu o aumento do nível de escolaridade ¿ ressaltou Gonzalez.
Contingente de jovens
Mas o fato é que o Brasil ainda é carente de políticas públicas específicas para os jovens, "e como o país concentra um contingente enorme da categoria, é imprescindível criar ações direcionadas a eles", garante o sociólogo.
Para Gonzalez, o desafio do governo concentra-se na educação. Além de fornecer melhores condições e aumentar o nível de escolaridade da população brasileira, o governo precisa garantir a inclusão do jovem no mercado de trabalho em ambientes menos precários.
¿ É muito importante criar políticas públicas que permitam o jovem completar os estudos, sem que ele seja empurrado ao mercado de trabalho ¿ reforça.
De acordo com a pesquisa, a situação educacional dos jovens, em 2006, continha 1,6 milhão de analfabetos, entre 15 e 17 anos; dos 18 aos 24, eram 2,8 milhões; e dos 25 aos 29, 2,7 milhões de jovens em completo analfabetismo.
Quase 34 % dos jovens de 15 a 17 anos vivem o problema da distorção idade-série, e ainda não freqüentaram o Ensino Fundamental. Também merece atenção na pesquisa o fato de pouco menos de um terço da faixa etária de 18 a 24 anos freqüentarem a escola, e apenas 12,7% cursarem o ensino superior, considerado nível de ensino adequado para esta faixa etária.
Para Gonzalez, o índice de escolaridade está melhor, porém ainda muito defasado. em 2005, a média de escolaridade brasileira, conforme destacou o sociólogo, é de 8,3 anos, dos 15 aos 24 anos; ou seja, "esta faixa etária apenas completa o ensino fundamental, o que é muito ruim", diz.
Marcelo Néri, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), concorda com o pesquisador do Ipea, de que o grande desafio do país é a educação e a qualidade de inserção do jovem no mercado de trabalho.
No entanto, o professor observa que o jovem de hoje está melhor preparado do que em outras gerações, e destaca a obsolescência tecnológica.
¿ A cada década, o conhecimento tecnológico dos jovens supera as gerações anteriores. A perspectiva de futuro é por meio da educação ¿ ressalta.