Título: A rota da morte nas estradas
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 28/05/2008, Opinião, p. A8

O BALANÇO DE ACIDENTES e mortos no último feriado de Corpus Christi pelas estradas brasileiras confirma os prog nósticos mais desabonadores e justifica os clamores por um maior rigor da legislação brasileira em relação à convivência entre álcool e direção. Os quatro dias do feriadão resultaram em 1.345 acidentes e 86 mortes pelo país que configuram um quadro perturbador, no qual omissão pública e imprudência brincam com vidas. No Rio de Janeiro, os 123 acidentes com 10 mortos ­ em comparação aos 106 acidentes durante o mesmo período no ano passado ­ fazem do último feriado o mais violento nas estradas do Estado nos últimos sete anos. Ao longo dos 61 mil quilômetros de estradas federais fiscalizados foram 867 acidentes ­ 11 a mais do que no ano passado. Nas estradas de Minas Gerais, o drama foi maior do que no restante do país. Nas rodovias pelo Estado, o número de mortes chegou a 22; e o de acidentes, 223. Santa Catarina, Rio e São Paulo vieram em seguida com 171, 123 e 120, respectivamente. Diante de tais evidências, merece enfáticos aplausos a apro vação do projeto de lei, pela Câmara dos Deputados, que prevê maior rigor contra o motorista que ingerir bebida alcoólica. Com o novo texto, passa a ser considerado crime conduzir veículos com qualquer teor de álcool no organismo. A multa será considerada gravíssima ­ punida com suspensão da carteira de habilitação por um ano e multa. (Atualmente, só motoristas com mais de 6 decigramas de álcool por litro de sangue são punidos). Igualmente relevante é a proibição da venda de bebidas em zonas rurais das rodovias federais. O projeto vai a sanção presiden cial. Que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não ignore a ra diografia da morte estampada nas estradas brasileiras. A ten dência é que não, afinal o go verno editou uma medida pro visória prevendo a proibição. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, também é um enfático defensor de maior rigor na matéria. Ambos sabem que o triste recorde das estradas decorre de um triplo problema: a péssima estrutura das estradas, o consumo de bebida alcoólica e a imprudência dos motoristas ao volante. Minas, o Estado recordista em acidentes, é dono da maior malha de rodovias federais do país ­ e também das piores estradas. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, o estado de conservação precário faz com que motoristas prefiram fazer viagens mais longas para fugir de buracos e más condições de tráfego da BR-267, por exemplo. Os caminhos são mais longos, mas garantem um pouco de segurança nas estradas. A Confederação Nacional dos Transportes (CNT) vem alertando para o fato de que o parque rodoviário brasileiro está se deteriorando pela ausência de restaurações. Vilão não menos preocupante, o álcool foi responsável pela maior parte dos acidentes em 2006. De acordo com a Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Outras Drogas, em 61% dos casos os motoristas haviam ingerido bebidas alcoólicas ­ entre casos fatais, o índice sobe para 75%. Naquele mesmo ano, mais de 36 mil pessoas morreram em acidentes de trânsito pelo país. Embora os índices relativos ao ano passado ainda não estejam fechados, não é difícil vislumbrar a repetição da tendência. Acidentes costumam provocar prejuízos à vida e aos cofres públicos. Estatísticas informam que a União gasta, por ano, cerca de R$ 28 bilhões com acidentes rodoviários ligados ao consumo de álcool. Outros R$ 5,3 bilhões anuais são utilizados na assistência às vítimas. A Organização Mundial de Saúde nos inclui entre os países mais problemáticos no abuso de bebidas. Sobram motivos, portanto, para que o Brasil comece, de fato, a escapar da curva da morte. O tripé da tragédia nas estradas precisa ser desmontado. Que autoridades e motoristas façam a sua parte.