Título: Juros extorsivos no cheque especial
Autor: Rosa, Leda
Fonte: Jornal do Brasil, 28/05/2008, Economia, p. A17
Especialistas aconselham que se evite contrair dívidas com taxas na faixa de 150% ao ano
São Paulo
O uso do cheque especial é a pior opção para quem busca crédito, e torna mais escassos os recursos da classe média. Esta é a opinião de Rafael Paschoarelli, professor de finanças e doutor em administração pela Universidade de São Paulo (USP). Economistas e entidades de defesa do consumidor reagiram do mesmo modo nas análises sobre o aumento das taxas de juros cobradas no cheque especial, crédito pré-aprovado oferecido pelos bancos aos seus clientes.
Os números divulgados ontem pelo Banco Central (BC) mostram que os bancos elevaram a taxa de 149,8% ao ano, em março, para 152,7% ao ano, em abril.
¿ O cheque especial é uma linha de crédito de baixa qualidade por causa de seu custo elevado ¿ diz Paschoarelli, que vê o aumento dos juros como um fator negativo na economia. ¿ Infelizmente a maior parte das pessoas usa o cheque especial por descontrole financeiro.
Segundo o especialista, o crédito de fácil acesso é usado pelos correntistas para viabilizar aquisições de necessidade questionável.
¿ Os recursos acabam indo para compras não-planejadas, como eletrodomésticos, eletroeletrônicos, viagens e outros itens que não são cruciais, itens que a classe média adora.
O professor acredita que se houvesse maior planejamento econômico, e especialmente, controle dos gastos supérfluos, o cheque especial seria um recurso exclusivo de casos pontuais.
¿ Só Isto poderia gerar a queda da taxa, porque enquanto houver demanda mesmo com esta taxa, os bancos vão continuar oferecendo, porque têm que defender os interesses dos acionistas.
Este tipo de crédito só é interessante para o consumidor cobrir dívidas pontuais, de um ou dois dias, no máximo.
¿ Se o cliente tem uma dívida que vence no dia 4 e seu pagamento só é depositado no dia 5, vale a pena pagar 5% de juros ao mês durante 48 horas, no máximo. Ou nos casos de motivos alheios à vontade, como desemprego e doença ¿ analisa.
A economista Héssia Costilla, da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Pro Teste), concorda que o cheque especial deve ser a última opção na lista das linhas de crédito.
¿ O crédito consignado e o crédito pessoal tradicional oferecido pelos bancos são opções melhores que o cheque especial ¿ diz a consultora. ¿ O endividado só não deve buscar o crédito das financeiras, cujos juros são tão altos quanto os do cheque especial.
Para demonstrar a diferença, Héssia criou um comparativo com um empréstimo de R$ 500. Estendida ao longo de 12 meses, a dívida no cheque especial, terminaria o prazo com um montante de R$ 1.259 ¿ sendo R$ 759 só de juros. Num empréstimo consignado, com juro de 4% ao mês, o valor final seria R$ 800,52 ¿ R$ 300,52 de juros. No empréstimo pessoal, com juro de 5% ao mês, o total seria R$ 898,00 (R$ 398) e, com juro de 6% ao mês, a conta final seria R$ 1.006,00 (R$ 506 de juros).
¿ Trata-se de um aumento nocivo para o consumidor, que arca com um custo maior e consome menos ¿ diz a economista do Pro Teste, que vê a falta de informação como fator determinante para que esta modalidade de crédito continue sendo utilizada. ¿ O consumidor carece de orientação sobre outras modalidades de linhas de crédito mais adequadas e vantajosas.
Procon
A tendência de aumento na taxa de juros também foi detectada pela Fundação Procon de São Paulo (Procon-SP) em sondagem realizada em 10 bancos. Segundo a equipe de pesquisadores que assina o levantamento, "a piora das expectativas inflacionárias influenciou as decisões do Banco Central, impedindo uma maior flexibilização da política monetária. O mercado reage aumentando os juros".
Segundo o estudo, a maior taxa alcançada pelo cheque especial foi registrada em julho de 1994: 294% ao ano.