Título: A trama de uma tragédia anunciada
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 29/05/2008, Opinião, p. A8

A ABSURDA TRAMA QUE RESULTOU na prisão de Itamar Campos Paiva, acusado de agredir um indefeso pedestre no Rio de Janeiro, escancara a soma de equívocos no trânsito da cidade. Adiciona elementos ainda mais perturbadores a um enredo de tragédias cotidianas, demarcadas por violência, xin gamentos, agressões sob motivos torpes e até trocas de tiros ­ boa parte dessas mazelas por obra e graça da falta de autoridade de quem deveria gerir e zelar pelo bom relacionamento entre pedestres e motoristas. Desde que a Polícia Militar deixou as esquinas, levando apitos e pistolas de volta aos quartéis, a sensação de insegurança aumentou. Furar um sinal passando perto de crianças ou idosos ficou mais fácil. Além do menor quadro efetivo, a Guarda Municipal não ostenta arma e, não raramente, seus agentes são agredidos ao sacarem os talões de multa ou palmtops. Talvez por esse motivo prefiram permanecer escondidos, para que os infratores não percebam sua presença e, assim, não questionem fisicamente as razões da punição. E assim a tese da indústria de multas cresce diante do en fraquecimento do caráter educativo no trânsito, que deveria nortear a ação da autoridade pública. A despeito da constatação, convém insistir: impressionam no episódio envolvendo Itamar seus contornos absurdos. O que dizer destes fatos? Há quatro anos, um homem entregou à Justiça um laudo atestando ser portador de esquizofrenia. Depois moveu dois processos contra o Estado pedindo reparação por danos na com pra de um veículo interme diada por um despachante do Detran. Cometeu duas infra ções, envolveu-se em duas dezenas de processos, foi apo sentado por problemas psi quiátricos e, em todo esse tempo, não se tomou nenhu ma medida cautelar para impedir que continuasse a dirigir irresponsavelmente pela cidade. Ninguém ­ absolutamente ninguém ­ foi capaz de evitar o previsível. Na sexta-feira da semana passada, ao atravessar em alta velocidade um sinal vermelho, Itamar ouviu os gritos de repreensão de André Luiz Lima, que defendia a própria vida e as dos dois filhos adolescentes. Itamar mudou de idéia. Parou o carro, deu marcha à ré, saltou furioso com uma barra de ferro na mão e acertou a cabeça de André diante dos filhos. Afundou o crânio do indefeso André. Consumado o crime, Itamar voltou ao veículo e seguiu em frente. Na terça-feira, apresentou-se à polícia e foi preso. Alegou, porém, legítima defesa. Apesar da prisão decretada, lacunas graves inspiram dúvidas inquietantes. Por que só agora, por exemplo, o Detran determinou um "levantamento rigoroso" para saber se o motorista infrator exibia condições psicológicas de dirigir? Como Itamar pôde ter a carteira de habilitação renovada em 2003 depois de ser submetido a exames? De que adianta a realização de exames de saúde se não são capazes de perceber um distúrbio tão grave quanto uma "esquizofrenia paranóide e transtorno delirante induzido", o problema detectado no agressor? Dispensável dizer que, se as providências devidas fossem tomadas a tempo, possivelmente teriam evitado a tragédia. Que as autoridades não só respondam a esses questio namentos, como reflitam sobre outra evidência: o cres cimento da violência no trânsito está diretamente ligado à crise de autoridade. Recordem-se, para tanto, as palavras do coordenador da Comissão de Acompanhamento das Leis de Trânsito da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio, Ar mando de Souza, para quem os órgãos emissores de ha bilitação têm autonomia para cassar sumariamente as carteiras. Ou seja: não precisam da Justiça. Então, mãos à obra.