Título: Mais uma nota alta para o Brasil
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 30/05/2008, Economia, p. A17
Nova classificação do país para grau de investimento também desperta temores
A Fitch Ratings elevou ontem a classificação do Brasil de BB+ para BBB-, o que coloca o país no grupo dos países com grau de investimento. O anúncio da Fitch confirma a promoção do rating brasileiro anunciada no fim de abril pela agência Standard & Poor"s, que foi a primeira a chancelar o país como bom pagador.
Embora positiva, a nova classificação também desperta temores entre especialistas, como o ex-ministro da Fazenda Ernane Galvêas, para quem o avanço inegável pode servir como alavanca para um ciclo de endividamento externo indesejável e desnecessário para o Brasil.
Justificativa
"A alta do rating reflete uma melhora dramática das balanças pública e externa do Brasil, que tem reduzido a vulnerabilidade brasileira ante os choques externos e cambiais, e fortifica a estabilidade econômica, além de reforçar suas previsões de crescimento de médio prazo", disse a agência em seu comunicado, justificando a reclassificação do país.
"As autoridades têm estabelecido um caminho de compromisso com a inflação baixa e com o superávit primário, que vêm eliminando as antigas preocupações sobre a sustentabilidade fiscal no médio prazo", continua a nota.
¿ A impressionante melhora das finanças externas, em parte puxada pela alta do preço das commodities mas também um resultado da boa gerência polícia juntamente com o status de credor líquido soberano, fez o Brasil ficar muito mais resistente aos choques financeiros globais e aumentou sua credibilidade em relação à sua política macroeconômica ¿ disse Shelly Shetty, diretora sênior de ratings soberanos da Fitch.
Porém, a agência alerta que o país vai precisar atacar com mais força alguns pontos fracos para melhorar o seu rating: "Os ratings brasileiros continuam limitados pela fraqueza estrutural das finanças públicas, pela alta dívida pública, pela desfavorável estrutura da dívida interna e pelo ritmo glacial das reformas estruturais", diz a nota.
"Reduzindo essas limitações através das reformas, o país confirmaria o potencial da sua economia e faria as finanças públicas serem vistas positivamente. Por outro lado, as persistentes derrapagens políticas que minam a atual estrutura política podem afetar negativamente os ratings do Brasil", conclui o comunicado.
O grau de investimento é a classificação dada pelas agências de rating a países com poucas chances de deixarem de honrar suas dívidas. Com a nota, o Brasil pode receber recursos de grandes fundos internacionais que só têm autorização para investir em mercados com o carimbo de bons pagadores. Alguns desses fundos exigem ainda que pelo menos duas agências considerem o país investment grade, o que acontece a partir de hoje.
No início deste mês, a terceira grande agência de classificação, a Moody"s, apontou a dívida pública brasileira como um dos principais empecilhos à melhora na avaliação do rating soberano do país. A atual nota (Ba1), segundo o grupo, classifica o Brasil como grau especulativo, que engloba nações de maior risco de crédito.
Risco embutido
O ex-ministro da Fazenda, hoje assessor econômica da Confederação Nacional do Comércio, Ernane Galvêas, entende quer a elevação do Brasil para grau de investimento é uma espécie de certificado que o país recebe, principalmente por estar conseguindo sustentar a inflação em níveis civilizados, mas embute risco de endividamento externo desnecessário e inoportuno.
¿ Esse compromisso do governo, de não exagerar os gastos públicos, de não permitir extravagâncias que pudessem fazer voltar a inflação, isso tem um mérito, que valeu ao Brasil o certificado de bom comportamento. Não dou muito valor a isso. Acho até que, num certo aspecto, pode ser prejudicial, porque estimula BNDES, Petrobras e o próprio governo, a tomarem no exterior empréstimos dos quais não temos a menor necessidade ¿ afirmou. ¿ A evidência de que este meu temor é fundado é que agora já vai o BNDES tomar um bilhão de dólares lá fora, já vai a Petrobras captar não sei quanto, o governo acaba de levantar US$ 500 milhões no exterior. Isto é contraproducente. O Brasil está com US$ 200 bilhões em reservas, não precisa ficar correndo atrás de empréstimo no exterior ¿ concluiu Galvêas.