Título: Unasul surge em período de crise
Autor: Bruno, Raphael
Fonte: Jornal do Brasil, 23/05/2008, País, p. A3
Chefes de Estado de 12 países se reúnem em Brasília para criar um organismo de cooperação
Brasília
Em meio a forte esquema de segurança, chefes de Estado de 12 países da América do Sul se reúnem, hoje, em Brasília, para assinar a ata constitutiva da União de Nações Sul-Americana (Unasul). A nova entidade surge com um desafio inicial: promover a integração política e econômica numa período em que os relacionamentos entre os governos da região são caracterizados marcados por tensões.
As articulações em torno da criação da Unasul, nome sugerido pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, remontam a 2004, quando surgiria a Comunidade Sul-Americana de Nações. A primeira nomenclatura havia sido sugestão do Brasil, mas, desde os primeiros encontros do grupo, Chavez vinha requisitando a mudança, que finalmente ocorreu em 2007. Em janeiro deste ano, os ministros das Relações Exteriores sul-americanos se reuniram para definir uma agenda básica e afinar os últimos detalhes do texto que será assinado amanhã.
Países-membros
A entidade é uma tentativa de aproximar os dois grande blocos da região, o Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul) e a Comunidade Andina de Nações. Integram a Unasul: Argentina, Chile, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.
A previsão oficial do Itamaraty é de que somente o presidente do Uruguai, Tabaré Vazquez, não comparecerá ao evento. Será substituído pelo vice-presidente, Rodolfo Nin Novoa.
Com a assinatura da ata constitutiva, o próximo passo é dar robustez à estrutura administrativa do órgão. Uma secretaria permanente, sediada em Quito, Equador, e formada por representantes designados pelos ministros das relações exteriores de cada país, funcionará como a principal instância decisiva da Unasul. Uma presidência rotativa de 12 meses será estabelecida.
As conversas em torno da criação de um parlamento também procuram avançar. O órgão seria formado pela união entre o parlamentos do Mercosul e andino. Mas a idéia enfrenta resistências entre os parlamentares de alguns países, inclusive do Brasil, que defendem a tese de que é preciso, neste momento, priorizar o fortalecimento do parlamento do Mercosul.
Objetivos específicos
A entidade não nasce com objetivos específicos claros, a exemplo do que ocorreu com o Mercosul no início da década de 1990. Até o momento, cada país espera algo diferente da Unasul. O presidente da Bolívia, Evo Morales, já falou em estabelecer uma moeda única para o continente. Nos últimos meses, as declarações mais otimistas em torno do projeto tem sido de Chavez e o recém-eleito presidente do Paraguai, Fernando Lugo.
O viés mais forte da entidade no que tange à integração se dá em torno das questões relacionadas à infra-estrutura e geração de energia. A centralidade que a temática ganha na Unasul gera expectativas sobre como o recém mal-estar entre Brasil e Paraguai envolvendo a usina hidrelétrica de Itaipu será abordado.
Correa e Uribe
Além das tensões entre Brasil e Paraguai, o encontro colocará frente a frente mais uma vez os presidentes Rafael Correa, do Equador, e Álvaro Uribe, da Colômbia. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) continuam sendo o principal explosivo da relação entre os dois países, na medida em que os computadores encontrados com a guerrilha que supostamente apontariam ligações entre o grupo e os governos venezuelanos e equatorianos estão sob jurisdição da Interpol.
O assessor especial da Presidência da República do Brasil, Marco Aurélio Garcia, um dos principais consultores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já declarou esperar que a reunião possa ser uma chance de aproximação entre Chavez e Uribe. Na programação do encontro, está prevista, após a assinatura da ata constitutiva, uma sessão de diálogo entre os presidentes. Por parte do Brasil, a posição mais incisiva a respeito dos interesses do país veio do ministro da Defesa, Nelson Jobim. O ministro comentou publicamente que aposta na criação de uma espécie de conselho sul-americano de defesa com a criação da Unasul.