Título: Solução caseira na indústria
Autor: Samantha Lima e Sabrina Lorenzi
Fonte: Jornal do Brasil, 18/02/2005, Economia, p. A19
Horas trabalhadas no setor aumentam em ritmo superior ao de contratações. Indicadores não acompanham alta de produção
O crescimento vigoroso da indústria em 2004 foi acompanhado de forma bem mais modesta no quesito criação de vagas. O emprego no setor expandiu-se 1,9%, no melhor resultado em 15 anos, mas que corresponde a um quarto da taxa verificada na linha de produção - alta de 8,3%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As horas trabalhadas também aumentaram além do emprego, 2,2% em relação a 2003, numa indicação de que os empresários ainda preferem estender o turno de trabalho a contratar mais gente. - As empresas ainda estão receosas se o crescimento econômico que se refletiu na produção é um processo duradouro. Por isso, preferem aumentar o número de horas extras, do que contratar sem certeza se vão poder manter o empregado, que é oneroso. Isso é normal nesses períodos iniciais de expansão - analisa o economista David Kupfer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Mas, para o economista Aloisio Campelo, da Fundação Getulio Vargas (FGV), o avanço do emprego industrial deve ser encarado de forma positiva.
- Viemos de uma década inteira em que o número de vagas na indústria só se reduzia, na esteira da terceirização e no ganho de produtividade. Sair de um resultado negativo para um crescimento de 1,9% é muito bom - comenta.
Levando-se em consideração o peso na indústria nacional, os setores que abriram mais vagas foram os de máquinas e equipamentos (avanço de 14,1% no número de vagas) e alimentos e bebidas (3,7%). Os que mais demitiram foram os de vestuário (queda de 7,5% no número de empregados) e de produtos de metal (-5,1%).
Os setores que mais pagaram horas extras foram os de máquinas e equipamentos (15%) e meios de transporte (9,6%). Vestuário (-8%) e produtos de metal (-3,8%) foram as principais contribuições negativas. Já a folha de pagamento média real teve um avanço que supera todos os indicadores da indústria: cresceu 9%, o maior avanço em 10 anos. Meios de transporte (32,9%) e máquinas e equipamentos (22%) lideraram as altas salariais na indústria.
- Isso se explica por um ganho real nos salários e um maior número de vagas. Além disso, o setor exportador, que cresceu mais do que o ligado ao mercado interno, paga mais - atesta Campelo, da FGV.
- Mesmo se referindo a um aumento real, eu diria que uma inflação menor também influi positivamente, porque desgasta menos a média salarial mensal - completa Luciana de Sá, economista da Federação das Indústrias do Rio (Firjan).
No cenário do emprego industrial para 2005, os prognósticos divergem.
- O nível de contratações vai melhorar em 2005. Pela última Sondagem Industrial que apresentamos, o saldo entre os empresários que querem contratar e os que querem demitir foi de 7 pontos percentuais. Nunca tivemos um resultado tão positivo - afirma Campelo.
Kupfer, da UFRJ, no entanto, acredita em um impacto negativo do freio macroeconômico provocado pela política de juros mantida pelo Banco Central, que elevou a taxa de juros de 16% para 18,75% em seis meses.
- A taxa de juros em alta incentiva o conservadorismo dos empresários na hora de contratar. O processo iniciado em setembro começará, na verdade, a influenciar negativamente no emprego industrial a partir de agora e deve permanecer por todo o ano de 2005 - aposta Kupfer.