Título: EUA negociam com rebeldes, afirma Time
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Fonte: Jornal do Brasil, 21/02/2005, Internacional, p. A8

Diplomatas e agentes de Inteligência americanos mantêm conversas informais e sigilosas com insurgentes sunitas no Iraque - não-alinhados com a rede Al Qaeda, representada no país pelo jordaniano Abu Musab al Zarqawi - segundo uma reportagem especial publicada ontem pela Time. A revista cita fontes iraquianas e do Pentágono.

A reportagem detalha uma reunião secreta, no subsolo de uma das protegidas instalações americanas na Zona Verde, em Bagdá, entre dois militares dos EUA e um negociador iraquiano, ex-integrante do regime de Saddam Hussein e representante do que auto-intitulou de ''insurgência nacionalista''. Um dos americanos, trajando roupa civil, conversava com o iraquiano, enquanto o outro anotava as exigências feitas para se obter um cessar-fogo por parte dos rebeldes. O que vestia roupa civil pressionava para saber os nomes de outros líderes insurgentes, enquanto o negociador iraquiano reclamava que o novo governo, de maioria xiita, é controlado pelo Irã.

No final da reunião, relata a revista, o insurgente deixou claro estar aberto a negociar.

- Estamos prontos para trabalhar com vocês - disse.

O encontro, que seria o segundo realizado até agora, foi relatado à revista pelo negociador iraquiano. Enquanto os militares americanos oficialmente não confirmam os detalhes, fontes em Washington revelaram que pela primeira vez os EUA estão em contato direto com membros da insurgência sunita.

- Não há um diálogo autorizado com os rebeldes, mas os EUA o estão fazendo - afirmou uma das fontes. - Há muita coisa acontecendo debaixo dos panos atualmente.

Durante a guerra, mesmo com o fortalecimento da resistência, os EUA vinham rejeitando categoricamente negociar com os inimigos. Mas a intensidade dos ataques nos últimos meses e os sinais de divisão entre a insurgência levaram algumas autoridades americanas a defender a busca por uma solução política. Outra motivação para o diálogo teria sido o grande comparecimento às urnas nas eleições de 30 de janeiro no Iraque, já que isto poderia ter afetado o moral dos rebeldes.

Segundo a Time, os insurgentes teriam dito que seu objetivo é estabelecer uma identidade política para representar sunitas derrubados do poder.

A Casa Branca não comentou de imediato a reportagem. Mas o polêmico político iraquiano Ahmad Chalabi disse ontem que o resultado de qualquer negociação entre insurgentes e militares dos EUA não seria executado pelo novo governo iraquiano.

- Não sei de nada sobre tais negociações. O governo eleito do Iraque de maneira nenhuma irá aderir a essas negociações. A questão aqui é não negociar com assassinos, que estão matando o povo iraquiano - disse, em entrevista à rede de televisão ABC.