Título: Reajuste sem peso
Autor: Daniele Carvalho
Fonte: Jornal do Brasil, 21/02/2005, Economia, p. A17
Para analistas, alta na cotação do minério de ferro e de produtos siderúrgicos não ameaçará inflação no varejo
O aumento de preço que os produtos siderúrgicos deverão sofrer por conta do reajuste na cotação do minério de ferro não deverá ter impacto expressivo no IPCA. Mesmo com as constantes reclamações das siderúrgicas de que a elevação dos custos terá de ser transferida para seus produtos finais, analistas em inflação acreditam que o consumidor não sentirá de maneira ostensiva os repasses.
A Companhia Vale do Rio Doce, por exemplo, tentou negociar com seus clientes um reajuste de 90% no preço de seu minério de ferro. Os analistas do setor, no entanto, acreditam que na queda-de-braço a empresa deverá conseguir apenas um aumento de 40% a 50%. Caso este reajuste aconteça, o Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) acredita que a elevação no custo de produção chegará a até 15%. A decisão sobre o impasse deve sair em abril, no acordo internacional entre as partes. Em contrapartida, estudo feito pela Vale aponta que, caso a alta seja de 90% no minério, haveria reflexo de 0,02% no IPCA, o que para os analistas é factível.
Na avaliação do economista Carlos Thadeu de Freitas Filho, membro do grupo de conjuntura da Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ), o impacto mais expressivo ficará nos preços ao atacado. A inflação medida pelo IPCA não ficará ameaçada.
-Em contrapartida ao aumento do minério de ferro e dos produtos siderúrgicos, existem outras commodities ferrosas e agrícolas em queda, o que deve neutralizar o impacto do ferro - comenta.
Freitas Filho cita como exemplo o alumínio, outro importante componente de bens de capital, que no ano passado teve queda acumulada de mais de 50% em sua cotação.
Para o economista, o repasse da alta deverá acontecer, principalmente, no setor automotivo e em eletrodomésticos.
Há quem trabalhe com projeções ainda menores para o reajuste do minério de ferro e dos produtos siderúrgicos. Para o analista da consultoria Tendências especializado na área, Sérgio Conti, a Vale não deverá ultrapassar os 20%.
- Neste caso, os produtos siderúrgicos teriam correção de 20% - avalia.
Ele também ressalta que o peso dos reajustes na inflação ao consumidor será norteado pela demanda.
Para o diretor responsável do Modal Asset Management, Alexandre Póvoa, no entanto, a inflação poderá ser impactada caso a demanda permaneça forte e haja oscilação em commodities de grande volatilidade.
-A neutralidade pode estar ameaçada caso produtos agrícolas, que historicamente têm maior oscilação, revertam tendência de queda e subam. Mais se o panorama se mantiver como está, inclusive com o dólar estacionado, o índice de preços ao consumidor não deverá sofrer reflexos - analisa.