Título: Trégua na pressão industrial
Autor: Sabrina Lorenzi
Fonte: Jornal do Brasil, 21/02/2005, Economia, p. A17

Preço do setor desacelera e pedido de crédito recua

A desaceleração de preços dos produtos industriais e a queda dos pedidos de empréstimo junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aumentam as pressões para o fim do arrocho nos juros. Alvos da política monetária apertada, os produtos industriais passaram de uma alta de 0,21% para 0,13% na segunda prévia de fevereiro do Índice Geral de Preços ao Mercado (IGP-M).

A alta dos preços do aço deu uma trégua. A inflação na indústria metalúrgica caiu de 1,14% para 0,42%. Na mecânica, o indicador desabou de 0,76% para 0,28%. Material elétrico, de transporte, borracha, matérias plásticas, tecidos, fumo, alimentos e perfumaria seguiram o mesmo caminho, com desaceleração ou mesmo deflação de preços.

O diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Gomes, avalia que o alívio da indústria previsto por economistas está em curso e deve servir de base para uma nova trajetória de juros básicos.

- A valorização cambial já está se refletindo nos preços industriais e isso não pode ser desprezado. Esse resultado mostra que talvez os preços não estejam vindo tão elevados como o BC esperava - afirma.

O economista Carlos Thadeu de Freitas Filho, do grupo de conjuntura da Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ), observa que o Índice de Preços por Atacado Industrial perde fôlego desde novembro. Mas em fevereiro, a desaceleração está se dando de forma generalizada, em vários ramos da indústria.

- Antes de elevar mais os juros, o Copom deveria aguardar os efeitos do patamar anterior, que já era alto - opina.

Para o economista da Fecomércio-RJ, João Carlos Gomes, os perigos da inflação em 2005 partirão dos preços administrados, que são insensíveis à política monetária. E destaca a queda das commodities e, agora, dos produtos industriais. O consumo pode ser abatido, assim como os investimentos, mas sem grandes efeitos na inflação, avalia.

As empresas reduziram o apetite por crédito e novos investimentos no início de 2005. Os pedidos de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), medidos pela entrega de cartas-consulta, encolheram 60% em janeiro na comparação com o total de solicitações realizadas em igual período de 2004. O superintendente de Planejamento do banco, Aloisio Austi, ressalva que janeiro é um mês tipicamente mais fraco no que diz respeito à demanda por financiamento. Mas não nega que os desembolsos 69% maiores em janeiro refletem a procura por recursos de cerca de três meses atrás.

Os economistas avaliam que a política monetária do Copom está defasada. Para João Carlos, da Fecomércio, outro atraso do BC está no alvo: o crédito que a autoridade monetária tanto procura combater moveu a demanda por duráveis, mas está no limite. O que está empurrando o consumo desta vez são os não duráveis, embalados por emprego e renda - que não são, pelo menos diretamente, influenciados pela Selic.