Título: O verdadeiro ¿cavalo-de-pau¿
Autor: Milton Temer
Fonte: Jornal do Brasil, 15/02/2005, Outras Opiniões, p. A11
O terceiro ano da Era ¿PT nos palácios¿ é tempo mais do que necessário para um balanço sobre o que prometia ser definitivo e foi jogado para as calendas no ideário neolulista
Foram vários episódios simbólicos. Primeiro; o aumento da tarifa da Light dez vezes maior ao já concedido havia apenas três meses. Segundo; o absoluto silêncio - cúpula do governo e direção do PT - quanto à coincidência entre o 25º aniversário do partido e o primeiro do escândalo Waldomiro. Por mais que se tente um ''nada a ver'', tratava-se de quadro de confiança do governo Lula, flagrado com a mão na botija da contravenção.
Como pano de fundo, os elogios de dois eminentes porta-vozes da ordem neoliberal predatória que liquidou as economias do países ditos emergentes nas duas últimas décadas: William Rhodes e Anne Kruger.
O primeiro, presidente do Citibank - instituição que transita entre agiotagem com títulos de países emergentes e lavagem de dinheiro ilegal -, fez questão de intervir, ao final da exposição de Lula e seus ministros a investidores estrangeiros, no Fórum de Davos. O relato é de Clóvis Rossi, na Folha de S.Paulo: ''A implementação de seu programa econômico é um bom exemplo para o mundo''.
Anne Kruger, diretora do FMI, sobre o tema, não deixou por menos: ''O Banco Central está corretamente preocupado em manter o crescimento e, ao mesmo tempo, manter a inflação baixa. Esse é o caminho no qual eles têm que andar. E nossa avaliação é que estão fazendo um bom trabalho''.
Não carece relembrar que, vindos de quem vêm, tais elogios soam mais como vitupério. Em sintonia com os fatos citados, sinalizam exemplarmente como entramos, de fato, no terceiro ano da Era ''PT nos palácios''. Tempo mais do que necessário para um balanço sobre o que prometia ser definitivo e foi jogado para as calendas, e sobre o que era transitório e passou a definitivo, no ideário neolulista, metido goela abaixo da militância petista - a maioria moderada, aplaudindo, e a minoria, outrora combativa, avalizando, num inócuo protesto interno.
No caso da Light, mais um indício da continuidade, em forma e essência, do governo Lula em relação ao mandarinato tucano-pefelista que o antecedeu. Para resolver problemas de gestão da empresa privatizada, aumento nos preços administrados, pois a taxa de lucro das áreas privatizadas é que não pode ser tocada.
No imbróglio Waldomiro, a certeza de que a blindagem do presidente do BC (ou ministro?) Henrique Meirelles, contra investigações do Ministério Publico, não foi exceção no rompimento do pretendido compromisso do PT com a ética na política. Foi apenas um elo na cadeia de novas posturas ''pragmáticas''.
Quanto aos que batalharam por quatro campanhas para levar o ''companheiro'' à Presidência da República, nem as batatas. Só a perplexidade, com a traição às prometidas medidas contra os privilégios do capital financeiro, no benefício de uma política de desenvolvimento econômico produtivo, pautado pela justiça social.
É duro constatar que, até para o conservador FMI - não por Anne Krugrer, mas por documento técnico divulgado semana passada -, a taxa de juros, que faz os lucros dos banqueiros não arrefecerem na corrida dos recordes, já está se tornando escandalosa, no contraponto da perversa e intocada distribuição de renda. E para compreender por que isto ocorre, não há como não registrar: falha nossa.
Ao invés de pacientar com a ''necessária transição'', bastaria ter levado a sério o primeiro documento produzido pela dobradinha Palocci-Meirelles, no começo mesmo de 2003, para concluir que ambos não foram escolhidos, aleatoriamente. Uma releitura mais acurada do ''Política Econômica e Reformas Estruturais'' comprova que o governo Lula, ao santificá-los, não vinha para mudar. Vinha para completar o que, por conta da acirrada combatividade do próprio PT, na oposição, o governo FHC não havia logrado cumprir, na consolidação do modelo neoliberal inaugurado pelo governo Collor.
Como afirmou o economista Reinaldo Gonçalves, ao se desligar do partido, a esperança pode ter vencido o medo, com a vitória do PT em 2002, mas terminou derrotada pela pusilanimidade. É verdade. O que a vida lamentavelmente comprova é que, longe de atacar os privilégios dos banqueiros e dos predadores do ''mercado'', foi a combatividade da base de apoio histórica que o governo petista atingiu com o ''cavalo-de-pau'' realmente executado. Não na economia, mas nos princípios.